História do bairro

A origem do bairro

O tradicional bairro de Botafogo nasceu em meio a uma guerra e, por pouco, quase terminou na mesma ocasião. Com efeito, o Capitão-Mór e Governador Estácio de Sá (1542-67) fundara a 1º de março de 1565 a "Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro", na base do "Morro Cara-de-Cão", na Urca, onde hoje existe o Centro de Capacitação Física do Exército e Fortaleza de São João. Tal ato teve por fim não só marcar a ocupação lusitana da Baía, descoberta pelos lusos em 1502 e até então presa fácil de aventureiros, como também expulsar a colônia francesa intitulada "França Antártica" que havia se estabelecido em 1555 onde hoje é a Ilha de Villegagnon.

No mesmo ano da chegada, em julho, Estácio começa a doar terras em regime de sesmarias a colonos e agricultores para que desenvolvessem a região. Tais doações, além de generosas, estavam livres de impostos e emolumentos, obrigando-se apenas ao beneficiado medir suas terras e delas deixar registro na Câmara de Vereadores, bem como desenvolver alguma cultura nelas..

Uma das primeiras doações foi, no entanto, para seu amigo particular, o futuro Vereador, sesmeiro e "Mordomo da Arquiconfraria de São Sebastião", o vicentino Antônio Francisco Velho. Era uma doação deveras respeitável, pois abrangia toda a enseada das futuras praias de Botafogo, Urca, Morro da Viúva e parte do Flamengo, até a altura da casa "Carioca", erguida em 1503 como uma malfadada feitoria lusitana num braço do Rio Carioca, mais ou menos onde hoje é a Rua Cruz Lima, no Flamengo. As terras de Francisco Velho abrangiam, portanto, áreas correspondentes hoje, aos bairros de Botafogo, Urca, Flamengo (parte), Humaitá e Lagoa (parte).

A doação constituía-se basicamente num vale, formado pelos morros que serão batizados no século XVII de São João e Da. Marta, cortado por dois grandes rios: o "Berquó" ou "Brocó", que ainda hoje existe passando canalizado pelo Cemitério São João Batista, assim chamado no final do séc. XVII em lembrança de um dos proprietários locais, o Ouvidor Francisco Berquó da Silveira; sendo o outro rio o "Banana Podre", em grande parte também canalizado, passando paralelamente à Rua São Clemente, pelos terrenos de algumas mansões, estando a descoberto ainda em algumas propriedades.

Havia também uma Lagoa de restinga, ligada ao mar, onde hoje está a Rua Dezenove de Fevereiro (e que teima em reaparecer sempre que chove), mas a principal e mais bela atração da doação era, sem dúvida alguma, a formosa enseada de águas plácidas, tão calmas que os franceses de Villegaignon a batizaram de "Le Lac" - o Lago.

 

Os índios tamoios, primitivos habitantes, não se sensibilizaram com a beleza da enseada, não lhe dando nome em especial. Chamavam Botafogo de "Itaóca"(casa de pedra), em referência a uma furna que ainda existe onde hoje é o Humaitá (fica no final da Rua Icatu).

A partir de 1565, surge o primeiro nome português do local, a "Enseada de Francisco Velho". E por esse nome foi conhecida por mais de quarenta anos. Francisco Velho era casado com Dª. Ana de Moraes de Antas, de tradicional família vicentina, vinda com Martim Afonso em 1532, e descendente de várias casas reais europeias. Em Portugal, a família era possuidora do tradicional "Paço de Antas", daí o sobrenome.

O casal teve ao menos uma filha, Da. Isabel Velho, casada com outro fundador do Rio de Janeiro, Antônio de Mariz Coutinho, futuro Vereador e que entraria na literatura romântica do séc. XIX como o pai de "Ceci", do romance "O Guarani", de José de Alencar.

Quando houve a expulsão dos franceses em março de 1567 e a transferência da cidade para o Morro do Castelo, a família Velho passou a residir em morada erguida onde hoje existe o imenso edifício neoclássico da "Universidade do Brasil", na Avenida Pasteur, antiga "Praia da Saudade".

Deve-se em boa hora lembrar que a topografia de então era bem diferente da atual. Não existia a Praia Vermelha, nem o terrapleno onde hoje figura a Praça General Tibúrcio. O Morro da Urca, junto com o Pão de Açúcar e o Cara-de-Cão formavam uma ilha, separada do continente. O Oceano Atlântico comunicava-se diretamente com as praias da Saudade e Botafogo. Somente em 1697 é que se fez o aterro que ligou a Urca ao continente.

Curiosamente, Francisco Velho veio a ser nosso primeiro "sequestrado" no Rio de Janeiro, pois foi capturado em janeiro de 1567 pelos índios tamoios quando foi ao mato cortar troncos para erguer a capela de São Sebastião. Velho foi rescaldado com vida pelos portugueses, depois de épica batalha travada próximo ao que é hoje o Morro da Glória, a 20 de janeiro de 1567, onde ocorreu espetacular embate entre cinco canoas portuguesas e cento e oitenta tamoios, com vitória lusitana onde, ao que se diz, até o próprio São Sebastião em pessoa apareceu para "dar uma mãozinha". O embate entrou para a história como a "Batalha das Canoas".

Já bem idoso, Francisco Velho vendeu suas terras em 1590 ao seu colega de aventuras, o alentejano de Elvas, João Pereira de Souza Botafogo (1540?-1605), sertanista famoso, e que deixara Portugal, ao que se diz, por embaraços financeiros. João Pereira emprestaria seu nome em definitivo ao bairro, que se chamou Botafogo desde então. O curioso é que possivelmente não era nome de nascença, mas sim apelido, muito comumente dado em Portugal aos arcabuzeiros, homens especialistas em armas de fogo manuais.

Portanto, os dois primeiros moradores do bairro já sofriam de velhos problemas cariocas: sequestro (Antônio Francisco Velho) e inadimplência (João Pereira de Souza Botafogo).

 

Pesquisa e Redação: Prof. Milton Teixeira, historiador e arquiteto

 
 
Perfil socioeconômico

Apesar de sua fundação em 1565, o bairro só passou a se chamar Botafogo 40 anos depois. Localizado entre as encostas do Corcovado e de Copacabana, na Zona Sul da cidade, com 4,84 km² e uma população de 77.212 mil habitantes em suas 119 ruas, o bairro de Botafogo pertence à Área de Planejamento 2, IV Região Administrativa do Município do Rio de Janeiro, sendo delimitado pelos bairros do Flamengo, Laranjeiras, Humaitá, Urca, Leme e Copacabana.

Situado entre o mar e a montanha, o aprazível bairro de Botafogo durante várias décadas continuou com as suas características de ruas tranquilas, casarões de classe alta, sobrados e vilas.

 

Após os aterros de 1948 e 1963 quando passou então a ter um formato de meia-lua, a Enseada de Botafogo é finalmente tombada em 1988. Orgulho dos moradores do bairro, ainda que por ora poluída, é, de longe, o mais belo e extasiante Cartão Postal da cidade. Embora pareça ironia, ela outrora foi chamada de Le Lac pela cristalinidade de suas águas.

 

Em conseqüência da falta de controle e planejamento urbano por parte do Poder Público, Botafogo começou a perder a sua qualidade de vida ainda na década de 50, com a abertura do então Túnel Novo, quando suas características eminentemente residenciais, foram gradativamente substituídas por atividades de serviços. Entretanto, foi a partir de 1975, que Botafogo começou a atrair novas atividades comerciais e empresariais, que invadiram os espaços tradicionalmente ocupados pelos velhos prédios residenciais.

 

Hoje é conhecido caracteristicamente como um grande corredor de passagem daqueles que se deslocam do Centro da cidade para as demais áreas da Zona Sul e Barra da Tijuca.

 

É exatamente por ter se tornado nesse aglomerado urbano indefinido, onde se misturam residências, comércios, serviços e grandes conglomerados empresariais, que hoje, em Botafogo, qualquer intervenção urbana que represente aumento ou perda de qualidade de vida, ganha dimensões gigantescas. 

 

O bairro de Botafogo

Botafogo é um dos bairros mais antigos da cidade. Foi exatamente aqui ( pois naquela época não existia o bairro da Urca), no morro "Cara de Cão", aos pés do Pão de Açúcar em 1565, que Estácio de Sá, fundou a Cidade do Rio de Janeiro.

Desde a época da monarquia, passando pelo Rio de Janeiro como a capital da República, foi em Botafogo que a aristocracia e, mais tarde as grandes personalidades do mundo político, instalaram suas residências.

 

Originalmente constituído por grandes mansões, Botafogo sofreu nos últimos 130 anos, um crescimento urbano completamente desordenado.

 

Sem nenhum planejamento urbano Botafogo viu suas casas unifamiliares serem transformadas em prédios de arranha-céus sem nenhum redimensionamento em sua infra-estrutura para acompanhar o crescimento do bairro. Ou seja, onde existia uma casa, foi construído um prédio sem que fossem refeitas novas redes de águas, de esgotos, de iluminação, de telefonia ou de trânsito.

 

Hoje é muito fácil constatar que essa falta de planejamento urbano levou a uma redução drástica da qualidade de vida do cidadão do bairro.

 

O conceito de "bairro de passagem" advém dessa falta de planejamento que transformou o bairro numa região super adensada urbanisticamente.

 

Fazendo uma análise comparativa sobre os pontos fortes e fracos de Botafogo, podemos dizer que o bairro de Botafogo tem como pontos positivos a sua rede de serviços, o seu comércio, sua rede de saúde, os transportes, a rede de ensino, e a sua localização. Como pontos negativos temos o trânsito caótico, a falta de áreas de lazer, a poluição da praia e a falta de segurança.

 

Uma das características de Botafogo é de ser, ao mesmo tempo, um bairro residencial porém, com grande predominância do setor comercial, visto que, um grande número de empresas mantém aqui as suas sedes. Isto deve ser considerado uma vantagem.

 

Em relação à questão da Segurança Pública podemos dizer que Botafogo não está nem pior nem melhor se comparado à maioria dos bairros da Zona Sul. Infelizmente, a insegurança é uma ameaça constante. Muitos pivetes se instalaram na Praia de Botafogo, na Mena Barreto (atrás da sede de Furnas) e em muitos outros pontos do bairro, principalmente nos sinais de trânsito, e nos freqüentes congestionamentos, onde atacam pedestres e motoristas. O furto e o roubo de automóveis também é muito freqüente em nosso bairro.

 

Por causa do grande número de ônibus que por aqui circulam, o assalto dentro de ônibus também é muito freqüente.

 

Botafogo é absolutamente carente de áreas de lazer. Faltam praças e a praia está completamente poluída. Infelizmente como lazer só restou o confinamento dos shoppings, os museus e os centros culturais, como por exemplo: a Casa de Rui Barbosa, o Villa Lobos, o Museu do Índio, e as livrarias e bistrôs dos cinemas Estação Net Botafogo e Net Rio; Espaço Itaú de Cinema; Cinemark; Kinoplex e a Biblioteca Popular de Botafogo, que mantém uma intensa agenda de atividades culturais.

 

O sistema de transportes de Botafogo é um dos mais completos da cidade. Entretanto, o trânsito do bairro é conhecido por sua lentidão e constantes engarrafamentos.

 

Os investimentos do setor imobiliário têm proporcionado uma ocupação desenfreada. Tal procedimento vem contribuindo para que Botafogo perca, de forma brusca, sua identidade cultural.

 

Estatísticas de Botafogo

 

Área- 4,79 km²
População - 82.890 hab. (fonte: IBGE - Censo 2010)
Densidade demográfica - 168,9 hab./ha
Pessoas por domicílio - 2,86
Índice de alfabetização - 96,69%
Renda média dos chefes dos domicílios - 11,5 s.m.
Área de parques, praças e jardins - 2,48
Praças - 17
Logradouros - 119
Postos de combustíveis - 22
Agências Bancárias - 43
Estabelecimentos de saúde - 108
Clubes - 7
Bibliotecas - 7
Salas de cinema - 25
Escolas Municipais - 7
Escolas Estaduais - 3
Colégios e Cursos - 129
Universidades e Faculdades - 6
Supermercados - 48
Área Urbanizada - 83,37%
Número de imóveis: residenciais - 33.784 (2000); não residenciais - 5.939 (2000).

Dados sobre atividades ligadas ao turismo

 

Em relação às atividades ligadas ao turismo, o bairro de Botafogo está longe do que se poderia esperar. Como sua praia está poluída, só se presta a contemplação. Os shoppings: Rio Sul, Botafogo Praia Shopping e o Plaza Shopping são uma excelente opção para as compras. Para assistir a uma boa música existem o Canecão ou o Espaço Cultural Sergio Porto. Para comer as opções são as mais variadas incluindo o Pólo Gastronômico de Botafogo à Rua Visconde de Caravelas e adjacências. Se for só para tomar um chope, a Cobal Humaitá é uma das opções recomendadas.

Dados sobre atividades ligadas a Construção Civil

 

Dados sobre o licenciamento de novas construções, em:

2000 - licenciados 99.824 m² (21 prédios)
2001 - licenciados 169.470 m² (33 prédios)
2002 - licenciados 90.244 m² (15 prédios)
2003 - licenciados 135.372 m² (9 prédios)
2004 - licenciados 53.326 m² (3 casas e 5 prédios)
2005 - licenciados 70.968,19 m² (14 prédios e 3 lojas)


Fonte: Rose Compans (Assessora da Secretaria Municipal de Urbanismo - SMU)

2006 - licenciados 45.813 m2 (16 prédios)
2007 - licenciados 182.419 m2 (46 prédios)
2008 - licenciados 202.958 m2 (20 prédios)
2009 - licenciados 34.461 m2 (7 prédios) - 1° trimestre


Fonte: Maria Eugênia Loureiro (Assessora da Secretaria Municipal de Urbanismo - SMU)

 

OBS: Não temos ainda um banco de dados com todas as empresas de Botafogo mas estamos trabalhando nesse sentido e logo haverá novidades.

 
Por dentro do bairro

Museu do Índio

 

O Museu do Índio é uma instituição governamental que se coloca a serviço da sociedade a partir de uma proposta de trabalho baseada na parceria com os povos indígenas. A preservação de suas tradições e o respeito pela diversidade étnica são elementos essenciais para a afirmação da cultura de cada um dos 270 grupos que vivem hoje no Brasil. São aproximadamente 370 mil índios que falam cerca de 180 línguas.

 

Mais do que abrigar, o Museu do Índio visa conservar, pesquisar e comunicar o seu acervo. Hoje, o Museu se apresenta como uma casa de informação e formação de novas opiniões e mentalidades. Acolhe pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento e encontra nos índios a parceria ideal para a realização de projetos e eventos que envolvem a preservação e a difusão de suas culturas.

 

A instituição tem adotado novas estratégias de contato com o público. A disponibilização de informações pela internet, a criação dos espaços Museu das Aldeias e Muro do Museu para a realização de exposições e a ênfase no trabalho com as crianças colocam os visitantes diante de uma forma diferente de ver e de ordenar o mundo.

 

Possui rico acervo relativo à maioria das sociedades indígenas contemporâneas, constituído de 16 mil peças etnográficas; 16 mil publicações nacionais e estrangeiras especializadas em Etnologia e áreas afins na Biblioteca Marechal Rondon, uma das mais completas e especializadas da América do Sul em temática indígena; 68 mil 217 documentos audiovisuais em diversos tipos de suporte, parte já digitalizada e armazenada em CD-Roms; 125 mil e 916 documentos textuais de valor histórico sobre os diversos grupos indígenas e cerca de 200 filmes, vídeos e gravações sonoras.

 

Para a instituição, conservar é preservar o patrimônio cultural, a memória, a história. Diversas ações têm sido realizadas nesse sentido, como a inauguração de laboratórios, a reforma das reservas técnicas e a digitalização do acervo.

 

Os projetos da instituição buscam associar entretenimento, educação e estudo. O Museu do Índio transformou-se em forte referência para pesquisadores e interessados na questão indígena, tendo contribuído com expressivos avanços para o campo de museus etnográficos brasileiros.


História

 

O Museu do Índio, órgão científico-cultural da Fundação Nacional do Índio (Funai), foi criado por Darcy Ribeiro, no bairro do Maracanã, no Rio de Janeiro, em 1953. É a única instituição oficial no país exclusivamente dedicada às culturas indígenas.

Em 1978, o Museu do Índio mudou-se do casarão, na Rua Mata Machado, para o espaço atual, na Rua das Palmeiras, em Botafogo: um prédio do século XIX, construído por João Rodrigues Teixeira, empresário da indústria alimentícia do Rio de Janeiro, para sua residência. Tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), a construção é exemplar arquitetônico representativo do período de urbanização do bairro.

O Museu do Índio organiza mostras temporárias de peças e fotos, utilizando o acervo guardado em suas reservas técnicas. Existem, ainda, nos jardins da instituição, duas ambientações: Casa de Reza Guarani e a Jurá, habitação tradicional Wajãpi.

Cemitério São João Batista

 

O Cemitério São João Batista é um cemitério municipal da cidade do Rio de Janeiro e localiza-se no bairro de Botafogo.

Criado a partir do Decreto nº 482, de 16 de outubro de 1851 , que autorizou a Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro a administrar os cemitérios da cidade, foi oficialmente inaugurado em 4 de dezembro de 1852 , no dia que foi enterrada uma menina com menos de quatro anos, de nome Rosaura, filha de Cândido Maria da Silva sendo que desta data até 30 de junho de 1855, foram feitos 412 sepultamentos.

O cemitério ocupa uma vasta área, tendo de frente pela rua General Polidoro , 333,5 metros, estendendo-se desde daquela frente, até as vertentes do Morro São João Batista , tendo na parte plana a superfície de 183.123 metros quadrados. Por dentro do terreno passa canalizado o Rio Berquó.

O chão inicial deste cemitério, a antiga Chácara Berquó, foi comprado em 2 de agosto de 1852, a Francisco da Cruz Maia. Posteriormente outras propriedades foram sucessivamentes adquiridas e reunidas para formar a atual área.

O projeto da portaria monumental e dos gradis da parte frontal são de autoria do engenheiro Bettencourt Silva.

É um dos mais ornamentados cemitérios brasileiros, com centenas de ricas capelas e artísticas sepulturas . No centro há uma capela dedicada a São João Batista . Possui uma quadra reservada para enterro das Irmãs de Caridade de São Vicente de Paulo , como forma de gratidão da Santa Casa de Misericórdia , com as freiras que assistiam os enfermos e asilados da instituição.

Alguns famosos enterrados no cemitério


Afonso Pena - presidente do Brasil
Afrânio Peixoto - escritor
Alceu Amoroso Lima - escritor e pensador
Álvares de Azevedo - escritor
Ari Barroso - compositor
Baden Powell - violonista,
Barão Homem de Mello - historiador e político
Carlos Lacerda - jornalista e político brasileiro ( perpétuo 4318, quadra 34 )
Carmen Miranda - cantora e atriz
Cazuza - cantor
Chacrinha - comunicador e apresentador de televisão
Clara Nunes - cantora
Cláudio Besserman Vianna ( Bussunda ) - humorista
Clodomir Cardoso - jurista, escritor e político
Daniella Perez - atriz
Dircinha Batista - cantora
Floriano Peixoto - presidente do Brasil
Francisco Alves - cantor
Heitor Villa-Lobos - compositor
Heráclito da Fontoura Sobral Pinto - advogado
Irving São Paulo - ator
José Xavier Carvalho de Mendonça - jurista
José de Alencar - escritor
José Lins do Rego - escritor
José Pancetti - pintor
Josué Montello - escritor
Lauro Corona - ator
Linda Batista - cantora
Machado de Assis - escritor
Marcello Caetano - estadista português, deposto pela Revolução dos Cravos
Maysa Figueira Monjardim - cantora
Monique Alves - atriz
Nelson Gonçalves - cantor
Nelson Rodrigues - escritor
Odetinha Vidal de Oliveira - santa popular
Otávio Tarquínio de Sousa - historiador
Orville Derby - geógrafo
Osvaldo Cruz - médico sanitarista
Paulo Francis - jornalista
Pedro Lessa - jurista, ministro do Supremo Tribunal Federal
Rodrigo Octávio - escritor e jurista
Santos Dumont - inventor
Tom Jobim - músico
Zuzu Angel - estilista
No panteão da Academia Brasileira de Letras estão sepultados:

Afonso Arinos de Melo Franco
Afonso Pena Júnior
Carlos Castelo Branco
Carlos Chagas Filho
Gilberto Amado
Elmano Cardim
Hermes Lima
José Guilherme Merquior
José Honório Rodrigues
Manuel Bandeira
Maurício de Medeiros
Otávio de Faria
Pontes de Miranda
Raimundo Faoro
Sérgio Correia da Costa
Silva Melo
Celso Furtado
Darcy Ribeiro
Oscar Dias Correa
Rodrigo Octávio Filho

Pavilhão Mourisco - "Biblioteca de Cecília Meireles"

 

“Tenho certas tentações de me declarar comunista oficialmente, para ver se arranjo uma subvenção de Moscou... Porque, de outro modo, tudo está obscuro demais, embora para uma fundação lendária, instalada num pavilhão de vidro, e dirigida por uma criatura tão improvável como eu...” 

Cecília Meireles

A biblioteca infantil, inaugurada em agosto de 1934, foi um dos projetos mais ambiciosos da reforma de Anísio Teixeira e um espaço onde Cecília Meireles pôde desenvolver sua criatividade e seu empenho em favor da literatura infantil. Situada na enseada de Botafogo, era conhecida pela população como Pavilhão Mourisco. Tornou-se um dos grandes empreendimentos culturais da reforma e destinava-se a ser a Biblioteca Infantil do Distrito Federal, mas se transformou num centro de cultura infantil, já que extrapolava os objetivos de uma simples biblioteca, pois conjugava outras atividades como o cinema, música, cartografia, jogos, etc. um verdadeiro órgão de pesquisa. A biblioteca era frequentada por estudantes das escolas públicas que para lá se dirigiam após terminadas as aulas. Lá desenvolviam atividades de biblioteca e também o seu senso estético e artístico. Inspirado na arquitetura do prédio o artista plástico Fernando Correia Dias, primeiro marido de Cecília Meireles, compôs um cenário das Mil e Uma Noites que proporcionava aos frequentadores uma atmosfera de encantamento e fantasia.

 

“Minha família morava então numa casa de cômodos da Praia de Botafogo, entre São Clemente e Voluntários, e foi dali que um dia a curiosidade infanto-juvenil me levou ao Pavilhão Mourisco, defronte, para ver o que havia por baixo daquelas cúpulas escamadas e por trás daquelas janelas coloridas: era uma biblioteca infantil especializada, a primeira que se organizava entre nós, e que durou quatro anos, frutificando em uma porção de outras que se espalharam pela cidade e por todo o país. 

O Pavilhão Mourisco passou a ser o meu divertimento predileto, pois, além do salão de leitura, a biblioteca tinha também um setor de manualidades (modelagem, pintura, desenho), um de brinquedos e jogos (foi onde encontrei o primeiro "mecanô"), e uma sessãozinha de cinema toda quinta-feira. O dia triste para mim era o Domingo, quando o Pavilhão não abria. 

Também me lembro de que qualquer dificuldade pedagógica ou disciplinar era comunicada a Dona Cecília, uma professora morena e alta, de sorriso para quase tudo, que tudo resolvia e ordenava. E vez por outra Dona Cecília tirava-se de seus cuidados administrativos para conversar com os freqüentadores mirins do Pavilhão Mourisco, sobre os livros lidos ou a ler, os brinquedos brincados ou a brincar, os filmes vistos ou a ver, um pouco da vida vivida ou a viver. 

No Pavilhão Mourisco vi uma porção de filmes educativos, li o que havia das aventuras de Tarzan, de Sherlock Holmes, dos personagens de Dumas e de Monteiro Lobato, de Júlio Verne, os contos de Grimm e Andersem e Perrault que me deixavam maravilhado. Só muitos anos depois vim a saber que Dona Cecília era Meireles - detalhe que para mim, naquele tempo, nenhuma importância teria: ela era a fundadora e diretora, mas o que me interessava mesmo era a biblioteca infantil com os seus livros e divertimentos, meus únicos divertimentos de garoto pobre naqueles poucos meses.

 

No ano seguinte matricularam-me na segunda série do Internato Pedro II, e a família se mudou para São Cristóvão, mais propriamente São Januário. O Pavilhão Mourisco ficava longe, longe os livros, os jogos, o cineminha; longe Dona Cecília e suas auxiliares. Depois demoliram o Pavilhão.”

(Geir de Campos, poeta)


Apesar de todo esse empenho, a biblioteca teve os seus dias contados. Com a demissão de Anísio, em 1935, a biblioteca teve dificuldades em continuar existindo. Em 1937, em plena vigência do Estado Novo, o Centro foi invadido pelo interventor do Distrito Federal. O fechamento se prendeu ao fato de que a biblioteca teria no seu acervo um livro de conotações comunistas, cujas idéias eram perniciosas ao público infantil. Tratava-se d’As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain.

A experiência do Mourisco, apesar de sua breve duração, representou a semente que mais tarde frutificou na criação das seções infantis das bibliotecas públicas e de bibliotecas infantis no Rio de Janeiro, São Paulo e outros municípios brasileiros. O pioneirismo desse empreendimento se resume ao fato dessa biblioteca possuir características antes nunca vistas no Brasil. Na época havia bibliotecas que jamais permitiam a entrada de crianças, outras que somente consentiam o acesso de menores acompanhados dos pais. A biblioteca do Mourisco foi além. Não somente estimulava a freqüência de crianças como mantinha os livros ao alcance das mesmas, novidade sequer tentada nas bibliotecas freqüentadas por adultos.

O prédio do Mourisco se transformou rapidamente num ponto de coleta de impostos, ficou abandonado por vários anos para ser totalmente demolido em 1952, durante a construção do Túnel do Pasmado.

 

(PIMENTA, Jussara S. Fora do outono certo nem as aspirações amadurecem. Cecília Meireles e a criação da biblioteca infantil do Pavilhão Mourisco (1934-1937). Dissertação de Mestrado. Departamento de Educação/PUC-RJ, 2001)


O local abrigou durante quase trinta anos uma sede para os esportes olímpicos do Botafogo Futebol e Regatas, conhecida como a sede do Mourisco, resultado de um acordo entre a Prefeitura e o clube, que precisou desocupar a área para a obra do túnel. Na década de 90, outro acordo com o Botafogo e, em 1998, foi inaugurado o Centro Empresarial Mourisco, uma construção espelhada, onde hoje se encontram as as sedes de várias empresas, salas comerciais e garagens.

 

Memória histórica

 

Nesse momento em que toda Cidade do Rio de Janeiro discute sua preservação, nós da AMAB não poderíamos deixar de estar no centro dessa discussão em relação a preservação do que restou do nosso vastíssimo patrimônio arquitetônico, paisagístico, histórico e cultural.

 

Afinal, a história dessa cidade pode ser contada - se não inteiramente mas em grande parte - através dos fatos históricos que tiveram origem em Botafogo.

Sabemos que muito de sua arquitetura já se perdeu pela ganância da especulação imobiliária, no entanto, para que no futuro nossos filhos e netos ainda tenham a chance de conhecer alguns desses exemplares arquitetônicos que contam a história dessa cidade, vamos lutar para que Botafogo seja, ainda que tardiamente, PRESERVADA.

 

A história do bairro de Botafogo se confunde com a própria história da fundação da Cidade do Rio de Janeiro em 1565. O Rio de Janeiro começou em Botafogo, quer dizer, no morro Cara de Cão, onde hoje está localizada a fortaleza de São João, já que na época não existia a Urca.

 

Quatro meses depois da fundação, Estácio de Sá, resolveu demarcar os limites da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro e doou, como era costume na época, a seu amigo Francisco Velho, que também tinha ajudado na fundação do Rio, terras que iam do morro da Viúva ao da Babilônia, e da Enseada de Botafogo à Lagoa.

 

Mas o bairro acabou sendo batizado em 1590, quando Antônio Francisco Velho vendeu suas terras para um amigo, João Pereira de Souza Botafogo.

 

A partir de 1680 surge uma das figuras centrais da história de Botafogo, o padre Clemente de Matos. A propriedade de Clemente abrangia quase todo o bairro. A frente da chácara dava para a praia de Botafogo e ocupava uma área que ia da atual Rua Voluntários da Pátria até a Marques de Olinda e se estendia até a Lagoa Rodrigo de Freitas.

 

Na grande chácara, o padre Clemente cultivava anileiras. Á noite, o lugar era praticamente deserto, nessa época, o Rio era iluminado por lamparinas com azeite de baleia.

 

Até o início do século XIX, o bairro era praticamente despovoado e considerado uma área rural. Um oficial russo que aqui esteve descreveu-o como "uma obra-prima da natureza". De um lado, o mar. De outro, as montanhas.

Mas a chegada a Família Real à cidade, em 1808, mudou a vida do Rio. Na verdade, mudou mesmo a vida de Botafogo.

 

Quando chegou ao Brasil, dona Carlota Joaquina - a esposa de D. João VI - escolheu um terreno em Botafogo para construir sua mansão. Carlota Joaquina gostava de andar à cavalo vestindo calças - um escândalo para a época. Suas cavalgadas prolongavam-se até a Lagoa. Sua mansão ficava de frente para a praia, na esquina com o Caminho Novo - atual Marquês de Abrantes. A presença de Carlota Joaquina imprimiram um novo estilo ao bairro. Botafogo se valorizou e suas terras começaram a ser disputadíssimas.

De bairro rural, transformou-se no local preferido pelos nobres e também pelos comerciantes ingleses que procuravam Botafogo para fixar suas belas residências. Tanto que o bairro ganhou o apelido de Green Lane. "O Rio é Botafogo, o resto é a cidade indígena, a cidade negra", descreveu o escritor Lima Barreto em seu livro Vida Urbana.

 

A enseada era tomada por regatas promovidas pelo Marquês de Abrantes. Os barcos partiam da fortaleza de São João e o ponto de chegada era o solar do nobre, localizado na avenida Praieira. Da varanda o marquês assistia à competição, junto com seus convidados e membros da Família Real. Lá estavam figuras históricas como o Almirante Tamandaré e o Almirante Barroso.

 

A urbanização foi chegando devagar. Em 1847, as ruas foram tomadas por carros de duas rodas e capota puxados por animais. Vieram também as diligências e, mais tarde, o bonde de tração animal da Companhia Jardim Botânico. Em 1854, o abastecimento de água começou a funcionar e seis anos depois, a iluminação a gás veio substituir as lamparinas de óleo de baleia. Em 1888 foi fundado um enorme depósito de gás na Rua Ana, atual Jornalista Orlando Dantas, com capacidade para cinco mil litros de gás.

 

O desenvolvimento avançava. Em 1870, na praia também funcionava a fábrica de produtos químicos de Aleixo Gary & Companhia. Os trabalhadores da empresa, contratada para fazer a coleta do lixo na rua, usavam uniformes com a inscrição "Gary". Foi aí que começaram a ser chamados de gari, palavra que acabou se tornando um nome para a profissão de lixeiro.

 

Foi na primeira metade daquele século que as ruas começaram a definir os contornos do bairro. Antes, Botafogo tinha apenas o Caminho do Berquó - hoje a Rua general Polidoro -, o Caminho de Copacabana - atual Rua da Passagem -, a Praia de Botafogo e a São Clemente, que cortava o bairro. Pouco a pouco, outras ruas começaram a surgir. O processo era sempre o mesmo: as ruas eram abertas pelos proprietários das chácaras e, depois doadas ao Município. Em 1825, foi aberta a Rua Voluntários da Pátria. No começo era sem saída, só em 1870 é que a companhia de bondes Garden Rail Road prolongou a rua até o Humaitá.

 

O lugar mais nobre continuava sendo a Rua São Clemente, onde moravam todos os barões do café. Na Voluntários da Pátria, estabeleciam-se os pequenos nobres e comerciantes.

 

Na década de 1850, surgiram as Ruas Dona Mariana, Sorocaba e Delfim, que mais tarde foi rebatizada de Paulo Barreto em homenagem ao escritor João do Rio. Havia ainda a rua do "Lá vai um": era a Venceslau Brás, chamada assim porque ficava justamente entre o hospício Pedro II, onde hoje funciona a UFRJ e o asilo Santa Teresa.

 

Inaugurado em 1852, o Cemitério São João Batista é um marco na história do Rio de Janeiro. Foi um dos primeiros cemitérios sem distinção de classes. Escravos e pobres eram enterrados em cemitérios de covas rasas. Nobres e ricos, em cemitérios particulares. Já os religiosos nas igrejas. O primeiro enterro no São João Batista contou coma presença de Evaristo da Veiga, José de Alencar, Benjamim Constant e Raul Pompéia. A igreja mais antiga de Botafogo foi a Matriz de São João Batista, construída em 1831 e doada à igreja por Joaquim Batista Marques de Leão. Já a Igreja da Imaculada Conceição do Sagrado Coração de Jesus, na Praia de Botafogo, foi erguida em 1892 com suas torres em estilo gótico.

 

Já na metade do século XIX, o bairro ganhou colégios, clínicas, casas de pasto e um comércio. Botafogo nesse século também já tinha suas Casas de Saúde. A primeira foi a do Dr. Peixoto, na Rua Marques de Olinda, que mais tarde foi rebatizada de Dr. Eiras. O primeiro colégio foi o Imaculada Conceição, logo seguido pelo Colégio Santo Inácio, na Rua São Clemente e pelo antigo Andrews, na Praia de Botafogo. O primeiro clube foi o Guanabarense, fundado em 1870. O Clube Botafogo, foi fundado duas vezes. Primeiro surgiu o Club de Regatas Botafogo em 1894, graças às regatas na enseada, depois em 1904, nasceu o Botafogo Football Club. No começo o campo era improvisado num terreno baldio da Rua Conde de Irajá. A união dos dois clubes só aconteceu em 1942, sob ao nome de Botafogo de Futebol e Regatas.

 

Na Praia de Botafogo foi fundado, em 1909, o Automóvel Clube. Aliás, o primeiro automóvel trazido para o Brasil, um enorme carro a vapor, teve suas primeiras demonstrações por ali, na praia. Até que numa destas, acabou explodindo. Mas por volta de 1903 e 1904, os ricos e excêntricos já davam suas voltas motorizadas pelo bairro. Conta-se que a primeira batida de carro do Brasil aconteceu em Botafogo. Mais precisamente na Rua da Passagem, envolvendo o escritor Olavo Bilac.

 

Se antes Botafogo era local de nobres, a partir de 1900 também passou a ser habitado por operários, biscateiros e artesãos, funcionários públicos e militares, comerciantes e profissionais liberais. Ao invés dos enormes casarões, as habitações coletivas se tornaram a marca do bairro. A obra do escritor Aluísio Azevedo - O Cortiço - se passa justamente numa vila da Rua Assunção. Já os mais abastados, moravam nas vilas, outra característica do bairro. Entre 1925 e 1930 surgem as Ruas Barão de Lucena e Guilhermina Guinle. Nessas ruas, inexistiam vilas pois uma lei municipal já havia proibido a construção das mesmas em Botafogo. Começam a surgir pequenos prédios, de no máximo quatro andares.

 

O crescimento de Copacabana e do Jardim Botânico provocaram uma verdadeira explosão no comércio e nos serviços de Botafogo. Os moradores desses novos bairros tinham que ir até Botafogo por causa dos hospitais, escolas e mercados, e, retornavam às suas casas no último bonde, o de quatro e meia da tarde. Enquanto Copacabana e Jardim Botânico nas décadas de 40 e 50 registravam taxas de crescimento de 74% e 59% respectivamente, Botafogo registrava apenas 8%, se tornando a partir daí uma mera ligação entre os diversos bairros da cidade. Dizem, que vem daí a expressão bairro de passagem. Isso, é claro, dizem os menos românticos e sem memória.

 

Enfim, a história de Botafogo será entendida então, como a história das suas ruas, das suas praças, das suas avenidas, dos seus espaços habitados, sejam eles de natureza pública ou privada, ricos ou pobres, eruditos ou populares. O bairro pertence a todos nós, seus habitantes, sendo nossa a responsabilidade de preservá-lo, identificando os elementos componentes de seu patrimônio histórico, cultural, artístico e ambiental, visto que ele constitui a sua memória.

 

* Pesquisa e redação: Regina Chiaradia
 

Bibliografia: História dos Bairros, Botafogo - Grupo de Pesquisa em Habitação e Uso do Solo Urbano da UFRJ
Bairros do Rio, Botafogo & Humaitá - Martha Ribas, Silvia Fraiha e Tiza Lobo

 

O Manequinho é nosso

 

Ao fazer um levantamento sobre a estatueta mais popular da Zona Sul da cidade, nunca poderia imaginar que iria encontrar pela frente uma história tão confusa e cheia de inverdades, mas, contudo, fascinante.

O MANNEKEN-PIS, estatueta que se encontra no coração da Grand’Place, em Bruxelas, capital da Bélgica é certamente a imagem mais conhecida da capital no mundo inteiro. Representa para a população belga, o espírito crítico e o humor do homem livre, mas acima de tudo, para um país que foi ocupado várias vezes por diversos povos durante vários séculos, é o símbolo do “homem livre numa cidade livre”.

A história do MANNEKEN-PIS ninguém conhece exatamente sua origem e autoria. É muito obscura e um problema para todos os que tentaram escrevê-la. Existem muito poucos arquivos sobre o MANNEKEN-PIS, que, com certeza, é muito antigo. Até o século XVII, não há praticamente nada, exceto alguns documentos isolados, sendo que o mais antigo data de 1377.

Apesar de existirem textos do mesmo ano, que atribuem sua criação a outro escultor, a versão oficial de sua história remonta aos 1619 anos, quando a Prefeitura de Bruxelas encomendou ao escultor Jérôme Duquesnoy Père, uma nova obra em bronze, para substituir a antiga estatueta de pedra.


Contudo, o que torna esse levantamento apaixonante são as coincidências entre o MANNEKEN-PIS belga e o nosso MANEQUINHO brasileiro.

Se isso nos trouxer algum consolo, O MANNEKEN-PIS belga também foi roubado diversas vezes. Entretanto, após cada roubo, ele foi encontrado e reconduzido ao seu pedestal.

O primeiro roubo, aconteceu em 1745, por soldados ingleses. Outro, em 1747 por soldados franceses. Ainda um outro, em 1817, por um ex-prisioneiro, e, por último, em 1963, por um pretenso intelectual. Já em 1965, a estatueta foi destruída por um fanático, e uma réplica teve que ser fundida. A partir de 1965, não existem mais registros de roubos ou ataques ao mais honrado e antigo habitante da capital belga, denominado pela população como “plus vieux bourgeois”.

Outra coincidência entre as duas estatuetas é o fato do MANNEKEN-PIS belga, também despertar nas pessoas vontade de vestí-lo. Hoje, o Museu Municipal de Bruxelas instalado na “Maison du Roi”, na Grand’Place, expõe um estupendo guarda-roupas do MANNEKEN-PIS, com mais de 250 trajes. Presentes que vão desde a veste de “Electeur de Bavière” dada por Maximilien-Emmanuel, Governador Geral dos Países Baixos, até o traje da corte, bordado em ouro, que lhe ofereceu o rei Luís XV. Incluindo-se aí, também muitos trajes folclóricos.

 

Tudo que as unem e tudo que as separam

 

Após os levantamentos feitos, o primeiro fato que para nós ficou claro, é que, involuntariamente, cometemos uma injustiça com o nosso artista que esculpiu o MANEQUINHO. 

 

 

O artista autor do nosso MANEQUINHO é Belmiro Barbosa de Almeida, brasileiro de Minas Gerais, que nasceu em 1858 e alternou residência entre o Rio de Janeiro e Paris, onde radicou-se e faleceu em 1935, em plena atividade. 

 

Belmiro de Almeida estudou na Europa, foi um excepcional desenhista e colorista que superou os ensinamentos acadêmicos usando os recursos da arte moderna como o Impressionismo, o Pontilhismo e o Futurismo. Aluno de Jules Lefebvre em Paris, em suas pinturas de corpos de adolescentes há algo na linha sensual e elegante do mestre. Foi professor de desenho da Escola Nacional de Belas Artes e, junto com Visconti, é considerado o iniciador do Modernismo Brasileiro.

 

Por que achamos que mesmo, involuntariamente, cometemos uma injustiça com o artista Belmiro de Almeida? Porque se tornou pública a informação equivocada de que o MANEQUINHO brasileiro era apenas uma réplica do MANNEKEN-PIS belga e, ao considerá-lo apenas uma réplica, deixou-se de dar a real importância à excepcional escultura de criança concebida pelo artista Belmiro. Na verdade, o nosso MANEQUINHO jamais foi uma réplica do homenzinho belga. O autor brasileiro pensou nele apenas como uma inspiração para fazer uma bela estátua de uma criança. O modelo para a estatueta, que hoje se encontra instalada numa pequena praça em frente ao Botafogo Futebol e Regatas, veio de uma menininha, filha de um amigo do autor. Também não partiu dele o nome escolhido para a peça esculpida. Mas, em sua grandeza, Belmiro de Almeida aceitou como uma gentileza o apelido com o qual o povo carioca “batizou” sua criação. 

 

Esta história é contada pelo próprio Belmiro de Almeida ao seu amigo e professor Armando de Magalhães Corrêa, em um encontro casual, na porta da Tabacaria Londres, cujo texto se encontra registrado no livro Terra Carioca – Fontes e Chafarizes, de 1939, do próprio Magalhães Corrêa.

 

“— Queres que te fale do meu boneco, que o povo carioca batizou de “Manequinho”? Pois então escuta: Foi em casa de um amigo que observei a sua filhinha ensaiando os primeiros passos na alameda do jardim e notei uma coisa curiosa na proporção: as crianças, nessa idade, têm o tronco muito maior que as pernas, o que não se verificava na formosa menina. Assim, pensei no “Manneken-Pis” de Bruxelas e comecei a modelar o meu Manequinho, servindo-me do modelo da menina.”

 

Até mesmo a dedicatória gravada na base da estátua, onde se lê: “Homenagem ao caracter reto e independente do Dr. Rivadavia Corrêa” é explicada neste livro, onde Belmiro de Almeida conta toda uma “confusa” transação entre ele e a Prefeitura na compra da estátua pelo Poder Municipal, que envolveu alguns “acertos” e alguns contos de réis; “acertos” esses que só foram resolvidos quando Rivadavia Corrêa, amigo do artista, assumiu a Prefeitura e regularizou a compra: “— Para que se não diga que protejo amigos, diminua dez contos.”

 

Existiam, na realidade, três peças do trabalho moldado em gesso por Belmiro de Almeida e confeccionado em Paris em 1911. A primeira fundição perdeu-se no momento de ser vazada em bronze por não ter sido o molde amarrado, dessa fundição salvou-se a cabeça, que foi dada pelo escultor, a Sra. Abigail de Paula Buarque e hoje pertence ao seu filho, Sr. Sylvio Brandon Schiller. A segunda fundição em bronze, era a peça que se encontrava na Enseada de Botafogo e foi furtada. A terceira e última fundição, que teve a expressão do rosto modificada pelo autor, foi dada pelo próprio, ao seu amigo Sr. Antonio Ribeiro Seabra, e hoje, pertence a sua bisneta, Sra. Mônica Buarque Benchimol Saad, encontrando-se exposta no corredor do 8º andar de um prédio da Rua Senador Dantas, sede da empresa de propriedade da família.

 

Resta agora a pergunta, e a estatueta do MANEQUINHO em frente ao Botafogo, quem é o autor? Bem, para nossa sorte, desde meados dos anos 50, a Fundição Zani, no bairro do Santo Cristo, havia feito um molde da escultura de Belmiro de Almeida, e, por ocasião do desaparecimento do MANEQUINHO da Enseada de Botafogo, a direção da firma ofereceu o molde à Fundação Parques e Jardins da Prefeitura, para que pudesse ser fundida uma nova estatueta, exatamente igual à original criada por Belmiro. 

 

A Fundação Parques e Jardins foi procurada por um torcedor do Botafogo Futebol e Regatas, que se prontificou em financiar a moldagem do novo MANEQUINHO, que hoje, à frente da sede do clube, recepciona a todos os torcedores. No entanto, é importante ressaltar que o MANEQUINHO, pelo seu simbolismo, não é apenas o mascote do clube, “é na verdade o símbolo do bairro de Botafogo”.

Pesquisa e redação de Regina Chiaradia, presidente da AMAB

 

A criação da freguesia de São João Batista da Lagoa

 

Oito meses após sua chegada ao Brasil, o Príncipe Regente D. João recebeu em novembro de 1808 uma petição dos moradores da parte sul do Rio de Janeiro solicitando a criação de uma freguesia, haja vista que todos os moradores da Lapa ao Leblon tinham de se deslocar até o centro do Rio para assistir missas com regularidade, batizar seus filhos, casar e obter a extrema-unção. Tendo D. João concordado com os termos da petição, resolveu o Príncipe enviá-la à sua Mesa de Consciência e Ordens, para verificar se não existia impedimento algum. Dada a carta branca para a criação da paróquia, a primeira em terras brasileiras criada pessoalmente pelo Príncipe, ela foi erigida em devoção à São João Batista da Lagoa, não que esta fosse a devoção dos fiéis, mas era apenas o santo onomástico de seu real nome. A 3 de maio de 1809, foi expedido o Alvará Régio da criação da freguesia com o nome de São João Batista da Lagoa, inicialmente instalada na velha Capela da Conceição, situada às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, e que foi erguida ainda em fins do século XVI, como capela do Engenho de Nossa Senhora da Conceição da Lagoa. A atual igreja encontra-se na rua Voluntários da Pátria, em terreno doado a 1º. De maio de 1831, pelo Comendador Joaquim Marques Batista de Leão. O mesmo alvará nomeava o primeiro pároco, o padre Manuel Gomes Souto. 

O Arcipreste Antônio Alves Ferreira dos Santos, que foi Secretário do Arcebispado e publicou em 1914 a prestimosa obra “A Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro”, dá como “Criada por Alvará de 12 de maio de 1809, executado pelo Bispo em edital de 1º. De agosto de 1809”.

Sem contestarmos o Alvará de 12 de maio e o edital de 1º. De agosto, parece-nos indisputável a primazia da Resolução do Príncipe Regente, a 3 de maio, publicada na “Coleção das Leis do Brasil”, sob a ementa “Cria a Freguesia de São João no sítio da Lagoa desta cidade”, cujo exato teor é o seguinte:

“Foi ouvida a Mesa de Consciência e Ordens sobre o requerimento dos moradores dos bairros de Botafogo, Praia Vermelha, Tijuca e Freguesia de São José desta Côrte, em que pedem se erija uma freguesia no lugar da capela de Nossa Senhora da Conceição do Engenho da Lagoa.

Parece à Mesa que o requerimento dos suplicantes está nos termos de ser atendido por vossa Alteza Real, fazendo-lhes a graça de desmembrar os ditos lugares da freguesia colada com a denominação de São João, em memória do nome de vossa Alteza Real, que lhe concede este bem, servindo de Igreja Paroquial (enquanto se não edificar outra), a Capela de Nossa Senhora da Conceição do Engenho da Lagoa e determinando que o reverendíssimo Bispo faça a ereção pelo que lhe pertence e demarque os limites da freguesia, como lhe parecerem mais cômodo e próprio; vencendo o pároco a côngrua de 200$000, paga pela Real Fazenda, e provendo-se na igreja o padre Manuel Gomes Souto, com a pensão de 25$000 anuais para a fábrica da real capela. Rio de Janeiro, em 21 de abril de 1809. Resolução: Como parece, e nomeio a Manuel Gomes Souto na forma da consulta. Palácio do Rio de Janeiro, 3 de maio de 1809. Com a rubrica de Sua Alteza Real”.

A rigor, não há discrepância e sim natural diferença entre dois atos, o de natureza administrativa e o de natureza eclesiástica.

A Capela da Conceição desabou em 1826. No lugar dela hoje existe o prédio da Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, na rua Jardim Botânico, quase ao chegar à Praça Santos Dumont.

 

* Prof. Milton Teixeira, historiador e arquiteto

 

O centenário da Avenida Beira Mar em Botafogo

 

A abertura de uma avenida que beirasse a orla da baía de Guanabara sempre esteve nos planos do prefeito Pereira Passos. Já em princípios de 1903, quando apresentou seu "modesto" plano de obras para a remodelação da cidade, ela já estava delineada em sua forma definitiva. Entretanto, como o orçamento da prefeitura estava em contados 40$000 contos de réis, e que deveriam dar para obras em quarenta e cinco outros logradouros da cidade, fora a abertura de novas vias, mandou o prefeito executar a avenida Beira Mar por partes, que ficaram prontas em épocas distintas. Seria um avanço de 33 metros sobre a orla original da cidade, começando a nova artéria na Rua de Santa Luzia, ao lado da serraria do prefeito, e terminando na Praia de Botafogo, junto ao Morro do Pasmado. Num pequeno trecho ela não margearia o mar, exatamente à volta do Morro da Viúva, fazendo-se a ligação da Praia do Flamengo com Botafogo por uma via interna, a qual, na falta de um nome melhor, ganhou o de "Avenida de Ligação". Desde 1917 a mesma se chama Oswaldo Cruz, em homenagem ao famoso médico sanitarista que residia na Praia de Botafogo.

Como em 1903 o bairro de Botafogo era um dos mais importantes da cidade, haja vista o enorme número de personalidades que ali residiam, a orla do bairro teve um destaque especial, sendo ali abertas três pistas: duas com piso de asfalto, para automóveis; e uma de areia, para cavalos, bem como a construção de jardins floridos, dois teatros de marionetes, um pavilhão de regatas e um pavilhão restaurante, este último, junto com um de teatrinhos, colado no Morro do Pasmado, e funcionando como um fechamento visual da avenida. A 15 de setembro de 1903, o inspetor do Departamento de Matas e Jardins, Caça e Pesca, Dr. Júlio Furtado apresentou ao prefeito a planta dos jardins, de inspiração francesa, desenhada por Paul Villon para a orla botafoguense. Os dois pavilhões e teatrinhos seriam executados em ferro e encomendados na França, mas sob projeto do arquiteto brasileiro Alfred Burnier. 

Os aterros foram realizados com entulho das demolições efetuadas por toda a área central da cidade, bem como alguma terra do Morro do Senado. Entretanto, como foi dito acima, a primeira parte da avenida a ficar pronta foi a orla de Botafogo, seguida pela Lapa e por último Flamengo e Avenida de Ligação. No mesmo dia em que o Presidente Rodrigues Alves inaugurava a Avenida Central, a 15 de novembro de 1905, era inaugurada a orla de Botafogo, já com a muralha em pedra, os jardins e pavilhão de regatas prontos. A solenidade contou com a presença do Presidente da República e foi marcada por uma regata que conglomerou todas as associações do gênero existentes no Rio de Janeiro. Como naquele tempo o banho de mar ainda não era um hábito arraigado entre nós, o prefeito aterrou totalmente a praia, a qual somente ressurgiu em pequeno trecho na década de 40 e totalmente restaurada pelo Governador Carlos Lacerda, na década de sessenta.

Somente a 15 de novembro de 1906 foi inaugurada a avenida do Centro a Botafogo, com uma "carreata". Em 1903, quando as obras começaram, somente existiam licenciados seis automóveis. Em 1905, quando da inauguração da Avenida Central e da orla de Botafogo, eram 40. Em 1906, eram 153 veículos. No ano de 1907, o Prefeito Souza Aguiar inaugurou o Pavilhão Mourisco, junto ao Morro do Pasmado, exatamente, onde hoje está uma passarela de ferro junto ao moderno Centro Empresarial Mourisco.

Nesses cem anos, a orla passou por outras transformações. Carlos Sampaio fez a avenida contornar o Morro da Viúva em 1922, dando-lhe o nome de Avenida Rui Barbosa. Em 1928 o Pavilhão de Regatas foi desmontado, como imprestável. Os dois teatrinhos sumiram pela mesma época. O Pavilhão Mourisco resistiu até 1951, quando foi demolido para a abertura do túnel do Pasmado. Os jardins foram remodelados inúmeras vezes, geralmente para pior. O atual desenho é da lavra de Burle Marx, e data de 1965. Em 1953, o Prefeito João Carlos Vidal dotou a orla praiana de mais duas pistas, e, finalmente, em 1963, foi-lhe refeita a praia que fora arrasada sessenta anos antes.

As belas mansões que margeavam a praia foram quase todas demolidas a partir da década de cinqüenta, sendo substituídas por edifícios modernos que, com raras e honrosas exceções, são todos horrendos!

Mesmo com todas essas intervenções e alguns atentados ao bom gosto, a orla de Botafogo continua a ser uma das mais lindas do Rio, emoldurando com rara felicidade o cartão postal formado pela trilogia de morros Pão de Açúcar, Urca e Cara-de-Cão, numa delicada praia em curva que enaltece a baía de Guanabara e que se tornou padrão visual mundial da Cidade do Rio de Janeiro.

 

* Prof. Milton Teixeira, historiador e arquiteto

 

Padre Clemente

 

Em 17 de janeiro de 1628 era batizado na Igreja Matriz de São Sebastião, no Morro do Castelo, o inocente Clemente Martins de Matos, segundo filho do Capitão e Vereador Álvaro de Matos e de Da. Marta Filgueira. Foram padrinhos os avôs maternos, D. Antônio Martins Palma e Da. Leonor Gonçalves, o casal que em cumprimento de uma promessa edificou a Igreja de Nossa Senhora da Candelária, em 1609.

Como era costume naqueles tempos, o filho mais velho herdava a profissão do pai, ficando Clemente destinado a ser padre, profissão de muito prestígio, haja vista ser a igreja ligada ao estado. Clemente, ainda adolescente, foi matriculado em seminário lisboeta. Lá não completaria seus estudos, sendo expulso, ao que se consta, por ter se envolvido com mulheres. Com ajuda do avô rico e do pai, Capitão e Vereador, terminou Clemente seus estudos num seminário em Roma, voltando ao Rio por volta de 1650 como padre, mas pobre como um monge.

 

Por influência familiar, logo Clemente abiscoitou importantes cargos no cabido da Sé, sendo nomeado Vigário Geral, Arcediago e Tesoureiro-Mór (naqueles tempos, todo cargo importante no Brasil era obtido por "pistolão"), atividades bem remuneradas e de grande projeção pessoal, principalmente depois de 1676, pois nesse ano foi criado o bispado do Rio de Janeiro, sendo Clemente a figura logo abaixo do Bispo, substituindo-o em suas ausências.

 

Como tesoureiro, Padre Clemente foi um desastre, pois durante sua gestão deixou o velho prédio da Sé cair aos pedaços a ponto de ser interditado e, finalmente, abandonado em 1703. Entretanto, Clemente ficou rico o suficiente para adquirir em 1680 a sesmaria de Botafogo, cujas terras tinham como limite a Enseada de Botafogo, a "Lagoa de Sacopenapã" (rebatizada em 1703 para Rodrigo de Freitas, seu dono), bem como os morros que depois se chamaram de São João e Santa Marta. Fundou Clemente a "Fazenda do Vigário Geral", ou de "São Clemente", numa imodesta homenagem ao seu santo onomástico. Não satisfeito, ergueu em suas terras uma capela dedicada a São Clemente, que existiu até o princípio do século XX, no final da Rua Viúva Lacerda. Como se fosse pouco, abriu Clemente um caminho da Enseada de Botafogo até sua capela, caminho batizado de..... São Clemente!

 

Em homenagem à sua veneranda mãe, que morreu no Rio de Janeiro em 1698 aos 92 anos (idade excepcional para a época), Clemente batizou o morro circundante de suas posses como "Morro Dona Marta". Nome que ficou até época recente. Em 1980, os favelados da "Favela Dona Marta", surgida em 1930 e hoje uma das mais conhecidas na cidade, em comum acordo, rebatizaram o morro para "Santa Marta", o que deve muito ter agradado o Padre Clemente, esteja ele onde estiver.

 

Padre Clemente faleceu a 8 de junho de 1702, aos 74 anos, sendo velado e enterrado na Igreja Matriz que tanto se descuidara enquanto tesoureiro. No ano seguinte, o Bispo Frei Francisco de São Jerônimo transferiria a Sé, da arruinada Igreja de São Sebastião, para a Capela da Santa Cruz dos Militares, na "Rua Direita", atual Primeiro de Março.

 

Herdou as terras de Botafogo o irmão de Clemente, Francisco Martins, que foi quem vendera, já muito antes, em 1606, outras terras ao casal Afonso Fernandes e Domingas Mendes, casal que devia gostar de praia, pois no mesmo ano adquiriram, da Câmara, as terras que iam do Leme ao Leblon. Em 1609, Da. Domingas, já viúva, doou todas as suas terras à Câmara dos Vereadores, tendo esta arrendado tudo ao Governador Geral Martim de Sá, que não esquentou com elas. Martim de Sá, em 1611, arrendou a orla oceânica ao dono do "Engenho de Nossa Senhora da Conceição da Lagoa", Sebastião Fagundes Varela, que destinou a orla ao pasto de suas vacas, que ruminavam entre cajueiros, pitangueiras e ananases.

 

Quanto às terras de Botafogo, foram arrendadas ao casal Pedro Fernandes Braga e Da. Bárbara Corrêa Xavier, que a retalharam toda e venderam os lotes.

 

Nada de importante se fez nelas até 1808, quando, com a chegada da Corte portuguesa, Botafogo torna-se bairro da nobreza. Em 1819 as terras correspondentes à maior parte da Rua São Clemente, são compradas por D. Marcos de Noronha e Brito, Conde dos Arcos, último Vice-Rei do Brasil, que ganha muito dinheiro com elas, loteando-as e vendendo a outros nobres.

 

* Prof. Milton Teixeira, historiador e arquiteto

Morro Santa Marta

 

A área correspondente à Favela Santa Marta era parte da chácara de Francisco José Teixeira Leite, Barão de Vassouras(1804-84), um mineiro sãojoanense que na hora certa trocou o ouro pelo café, granjeando enorme fortuna no Vale do Paraíba. Casou-se duas vezes. Sua segunda esposa, Da. Ana Alexandrina, trinta anos mais jovem que ele, era dada a acessos de loucura. Freqüentemente saía à rua sem roupas, o que causava ao Barão grande constrangimento. Sua casa na São Clemente era, por isso, bem afastada da rua, cercada de frondosas árvores e amplo jardim fronteiro, exatamente onde hoje está a Praça Barão de Macaúbas.

 

Aliás, falando dele, foi o proprietário seguinte da chácara do Barão de Vassouras. Abílio Cesar Borges (1824-91) era médico e educador, tendo fundado em Laranjeiras o Colégio Abílio, onde estudou Raul Pompéia (e inspirou seu livro "O Ateneu"). O Imperador D. Pedro II agraciou-o em 1881 com o título de Barão de Macaúbas. Quando morreu, sua imensa propriedade ficou fechada alguns anos.

 

Os padres jesuítas fundaram em 1901 o Colégio Santo Inácio, que no primeiro ano funcionou numa casa na Rua Senador Vergueiro. Em 1903 alugaram (e depois compraram) a casa nº 226 (antigo 132) da rua São Clemente, onde morou o comerciante Carlos Guilherme Gross. Em 1908, com o sucesso do colégio, ampliaram suas instalações comprando chácaras vizinhas, inclusive a que foi do Barão de Macaúbas. Tomadas por um capinzal, passaram a extraí-lo para venda, com o que ganharam alguns recursos. Em 1915 a Prefeitura mandou cortar todo o capinzal com receio de incêndios, passando então aquelas terras a serem usadas como local de recreio dos alunos.

 

Desde 1908 dirigia o colégio Padre José Maria Natuzzi, que sempre preocupou-se com as instalações restritas da velha casa, ampliando-a à partir de 1909. Em 1915 é inaugurada a nova capela e ampliado de muito as velhas instalações. A Primeira Guerra Mundial impossibilitou a continuação das obras. Em 1924 as obras foram recomeçadas, sob a direção do engenheiro arquiteto Padre Camilo Armelini.

 

Desde 1924 Padre Natuzzi, homem piedoso, permitia que operários pobres e suas famílias estabelecessem moradia no Morro Dona Marta. Em 1929, com a queda dos preços do café no mercado mundial, muitos agricultores pobres do Vale do Paraíba migraram para o Rio. Padre Natuzzi acolheu a muitos, destinando-os ao Morro Dona Marta. Na mesma época, recrudesceram as obras do colégio e capela, sendo em 1931 inaugurado o novo altar de Santo Inácio e em 1939, a ala esquerda do colégio. E claro, Padre Natuzzi inaugurou igualmente, sem querer nem saber, a favela do Morro Dona Marta. .

 

Em verdade, a primeira favela de Botafogo não foi ali. Já o recenseamento de 1920 registrava a existência de 63 barracos no Morro São João. Treze anos depois, São João estava deserto. Todos migraram para o Dona Marta atraídos pela oferta de trabalho nas obras do colégio e terras no morro oferecidas pela bondade de Padre Natuzzi.

 

Como as obras duraram por quase trinta anos, emprego houve para essa gente. Durante muitos anos viveu a população favelada em paz, intocada pelos políticos, que não se interessavam por ela. Com o crescimento da vizinha Copacabana e a orla de Botafogo, surgiram muitos prédios altos e, é claro, trabalho para muitos. Já em 1950, o censo realizado naquele ano registrava 1632 habitantes no Dona Marta, sendo 787 homens e 845 mulheres. 1355 eram maiores de cinco anos. Destes, 627 sabiam ler e escrever e 728 eram analfabetos.

 

Em 1960, com a criação do Estado da Guanabara, o Governador Carlos Lacerda desenvolveu enorme campanha de erradicação de favelas. O objetivo era pouco nobre. Não era propriamente dar melhores condições de vida à aquela gente, e sim liberar os valorizados terrenos de encosta para especulação imobiliária, então em franca ascensão na zona sul.

 

Em Botafogo, foram removidas as favelas do Pasmado e Macedo Sobrinho, sendo que, o sucessor de Lacerda, Negrão de Lima, eliminaria a da Catacumba, na Lagoa, onde hoje está o Parque Marcos Tamoyo. Dona Marta escapou haja vista sua estabilidade já consolidada no bairro e a propriedade dos terrenos, em mãos dos jesuítas e fora do processo especulativo. O governo chegou até a construir uma escola, inaugurada em outubro de 1968 pela Rainha Elizabeth II da Inglaterra, que visitou a favela. Entretanto, essa escola era de tão precária construção que, literalmente, só durou o tempo da visita da rainha. Valeu apenas o episódio para unir os moradores em defesa de suas casas e direitos, mostrando que não eram diferentes dos outros cariocas, atividade que prenunciou as famosas associações de moradores.

 

Em 1977, após a fusão da Guanabara com o Estado do Rio de Janeiro, o Prefeito Marcos Tamoyo não falava mais em remoção, mas reurbanização. Entretanto, somente seu sucessor, o Prefeito Israel Klabin definiu bem o que era isso em 1979. Deixar os moradores em paz, colocando infra-estrutura, esgotos e demais serviços públicos. Em 1979, existiam no Morro (ainda) Dona Marta 2421 habitações, com população estimada de 12.105 habitantes, que se espalhavam por uma área de 55.540m². Era a maior das oito favelas do bairro, acumulando 2/3 da população favelada de Botafogo, com média de 1.051 habitantes por hectare.

 

Em 1980, os moradores da favela Dona Marta se uniram e resolveram rebatizá-la para Santa Marta. No ano de 1985, o famoso ISER - Instituto Social de Estudos da Religião realizou o famoso longa-metragem "Santa Marta - Duas Semanas no Morro", com uma hora de duração, filme que causou grande sensação, ainda mais que um dos adolescentes entrevistados seria no futuro o famoso traficante "Marcinho VP".

 

O empobrecimento geral do país na década de oitenta e um governo estadual excessivamente tolerante permitiram que o tráfico de tóxicos estabelecesse no morro importante quartel general. Apesar da proximidade do 2º Batalhão da Polícia Militar, nada de concreto se pôde fazer para deter a ascensão de meliantes cujos nomes eram substituídos por apelidos repetidos em grandes manchete: "Bolado", "Pedrinho da Prata" e o famigerado "Marcinho VP", que chegou a ser o primeiro traficante a obter financiamento de um banqueiro para escrever um livro.

 

Se, por um lado, o Santa Marta possui essa face perigosa, muito mais interessante é sua importância cultural. Há trinta e cinco anos atrás surgiu em seus barracos a primeira agremiação de samba da zona sul, o bloco "Unidos da São Clemente", que ascendeu na década de setenta à categoria de escola de samba, atingindo ao primeiro grupo no fim da década, onde chegou a ameaçar suas tradicionais coirmãs. Em 1992 surgiria a segunda agremiação do morro, a "Mocidade Unida do Santa Marta". Não é nada não é nada, são poucas as comunidades que podem se orgulhar de possuir duas agremiações de samba!

 

Em 11 de Fevereiro de 1996 visitou a favela e gravou um importante vídeo-clip o pop-star Michael Jakson, com direção do não menos famoso, cineasta Spike Lee. As recentes e bombásticas revelações do envolvimento entre um grande banqueiro e o traficante chefe da favela levam a crer que a cidade não está tão partida assim como os sociólogos acusam.

 

Enquanto sociólogos, banqueiros, traficantes e policiais brigam entre si, a população do Santa Marta deseja apenas participar da palpitante cidade que os circunda, e da qual já faz parte indissociável.

 

* Prof. Milton Teixeira, historiador e arquiteto

 
 

Comércio na rua Voluntários da Pátria

 

Esta rua foi aberta em 1826 por Joaquim Marques Batista de Leão, Marquês dos Leões, comerciante português monarquista, e que igualmente abriu em suas terras, na mesma ocasião, a rua Real Grandeza, Marques e o Largo dos Leões, onde residia. O primitivo nome foi rua de São Joaquim da Lagoa, seu santo onomástico. Em sessão, porém, de 13 de maio de 1870 e proposta do Sr. Presidente Barroso Pereira, deu-lhe a Ilustríssima Câmara Municipal a denominação de rua dos Voluntários da Pátria, em homenagem aos brasileiros que se alistaram voluntariamente na guerra de 1864/1870 contra o governo do Paraguai.

Antigamente, a rua não possuía saída e terminava pouco além da Travessa (hoje rua) Marques, mas a companhia de bondes Botanical Garden Rail Road, fundada pelo engenheiro americano Charles B. Greenough, adquiriu muitos terrenos em 1868 e a prolongou em 1870/71 até o Humaitá.

 

A rua São Clemente, aberta no século XVII, era o logradouro da fidalguia, onde residiam os grandes barões do café. Nela moraram nos anos setenta do século XIX, o Barão de Azevedo, Antônio José de Azevedo Machado (no nº 5); o Barão do Rio Bonito, José Pereira Darrigue Faro (no nº 135); o Segundo Conde de Itaguaí, Antônio Dias Pavão(no nº 24); o Primeiro e Segundo Barões da Lagoa(no nº 98, hoje Casa de Rui Barbosa, atual 134); o Segundo Barão de Vargem Alegre, Luiz Octávio de Oliveira Roxo(no nº 106); o Barão de Oliveira Castro, José Mendes de Oliveira Castro(no nº 146); e outros. Também residiram na rua São Clemente o Vice Rei Conde dos Arcos, D. Marcos de Noronha e Brito; o Barão de Vassouras, Francisco José Teixeira Leite; o Barão de Macaúbas, Abílio César Borges(ambos onde hoje é a rua Barão de Macaúbas, na subida da favela Santa Marta; o Barão de Werneck (na esquina de Dezenove de Fevereiro) e o Marquês de Tamandaré (onde hoje é a Rua Guilherme Guinle); bem como vários fidalgos, comendadores e ministros (Rui Barbosa, Lafaiette Rodrigues Pereira, etc.) ou seus parentes próximos.

 

Na Voluntários, por sua vez, era a rua dos grandes comerciantes e pequenos nobres. Nos últimos anos do Império, no nº 1 morou o engenheiro e empresário André Steel, dono de fábrica de tecidos na Lagoa; no nº 15, morou o comerciante José Joaquim Costa Pereira Braga, dono de fábrica de chapéus, na Tijuca; no nº 49, o Visconde de Caravelas, único grande nobre da rua, ex-regente do Império; no nº 119, o mercador de escravos, José Bento Rodrigues Callau; fora eles, muitos comendadores portugueses, comerciantes enriquecidos e empresários em ascensão. Na República, continuar-se-ía com os portugueses enriquecidos, comendadores e donos de estabelecimentos comerciais.

 

Ainda no Império, era na Voluntários da Pátria que se encontrava um incipiente comércio, representado pela padaria do português Antônio Antunes Guimarães, no nº 121, ao lado da Matriz de São João Batista; uma botica do também português João da Silva Teixeira, no nº 72, e uma cocheira de burros, da Botanical Garden, no nº 90, onde hoje é o Hortomercado da Cobal. Fora isso, existiam quartos para alugar no nº 5 (cinco quartos); no nº 2 (quatro quartos); no nº 14 (trinta e um quartos); no nº 44 (três quartos) e no nº 74 (também três quartos); todos esses quartos eram negócios de portugueses.

 

Na República, foi grande proprietário de imóveis na rua Voluntários da Pátria, o comendador português e comerciante João Manuel Magalhães, que morava em extensa chácara no nº 127. Um outro português fundaria o mais famoso bar da rua Voluntários da Pátria, o "Sereia", no lado par, esquina da Praia de Botafogo (fechou as portas em 1966, depois de 50 anos lá). Aliás, Botafogo era o bairro dos bares de portugueses, tradição que ainda se mantém e pelo qual é famoso. Hoje surgiram os restaurantes finos e os de fastfood, que convivem harmoniosamente com seus colegas lusitanos mais antigos.

 

A mais antiga farmácia homeopática era a Nóbrega, existente desde princípios do século XX, recentemente reformada. As mais tradicionais padarias da rua eram de um português monarquista: a Imperial e a Bragança, uma em frente à outra, na esquina da rua Voluntários com a rua Real Grandeza. Ambas fundadas em 1922, só sobreviveu a Imperial. O mais antigo supermercado foi o Gaio Marti, na esquina da rua Voluntários da Pátria com a rua Dona Mariana, lado ímpar. Logo depois era a Casas da Banha. Ambos existiam desde os anos 1930. O primeiro fechou as portas nos anos 1960. O segundo ainda é um supermercado. O primeiro supermercado moderno, o Disco, foi fundado há quarenta e cinco anos quase em frente. Hoje é um estacionamento e, em breve, um prédio. Em 1962 surgiu depois da rua Matriz, no lado ímpar, o "Charque", depois Sendas.

Da rua Sorocaba até a rua da Matriz, existem ainda muitas lojinhas que resistem estoicamente ao progresso: armarinhos, papelarias, lojas de modas, farmácias, sapatarias, discos, açougues (lá existe um, pré-histórico, com açougueiro português e tudo), brinquedos, plásticos, e outras de miudezas mil, aliás, moda que voltou com força, com as lojinhas de R$ 1,99.

 

Foram famosos os cinemas da rua Voluntários da Pátria. Eram três. Dois sobrevivem, como cinemas de cult-movie (Estação 1 e 2). O terceiro era quase na esquina da rua Real Grandeza, lado ímpar, e fechou as portas em 1968. Bairro com poucas livrarias no passado (só papelarias e uma pequena livraria perto da Cobal), hoje tem várias perto dos cinemas e quase no Humaitá. Duas bancas de jornais, entretanto, oferecem tanto quanto as melhores livrarias da cidade: a do Metrô, na esquina da Rua Voluntários da Pátria com Rua Nelson Mandela, e a do Wellington, na esquina da Rua Voluntários da Pátria com Rua 19 de Fevereiro, que além de ser uma verdadeira livraria, tem de tudo um pouco, de doces à camisinha e é uma fortaleza, com telefone, Internet, ar condicionado, sistema de som e circuito interno de televisão com microcâmeras e o escambau (Sorria! Você está sendo filmado...).

 

Em 1977, o então Prefeito Marcos Tamoyo decretou que Botafogo seria o novo Centro do Rio. Desestimular-se-ia o comércio horizontal, privilegiando o vertical, próximo às estações do Metrô. Vinte e três anos, sete prefeitos e três shoppings depois, o comércio horizontal do bairro dá mostras de extrema vitalidade, renovando-se constantemente, apesar das imensas crises, e sem dar a entender que vá acabar tão cedo.

 

* Prof. Milton Teixeira, historiador e arquiteto

 

Os tesouros da Guanabara

 

Em 1990, o arqueólogo Manuel Guerra comprou de um livreiro carioca um antigo mapa, manuscrito inédito e anônimo da entrada da Baía de Guanabara, redigido em francês arcaico, e datado de aproximadamente 1560, quando Villegagnon ocupava-a e tencionava aqui implantar a "França Antártica". Mostra, em linhas gerais, o Pão de Açúcar, então chamado de "Pot-de-Sucre", os morros da Urca e "Cara-de-Cão"(ambos sem nome), sendo que o último aparece separado do continente, formando com os outros dois uma ilha, no mapa batizada de "Yle Trinité"(Ilha Trindade, pois era formada pelo "Cara-de-Cão", "Pão-de-Açúcar" e Urca), não existindo o que hoje chamamos de Praia Vermelha, pois esta só se formou no século XVII. 

 

A Baía de Botafogo aparece citada como Lac D`Eau Douce (Lago de Água Doce), onde hoje está a Avenida Pasteur aparece a legenda "Praya", estando o Morro da Viúva com as enigmáticas iniciais "P.M.". 

O mais curioso, é que o mapa demarca as posições de nada menos que três tesouros enterrados na Baía de Guanabara! 

 

O primeiro deles, grafado como "Tresor" (tesouro), está na base do Pão-de-Açúcar, onde hoje situa-se o Centro de Capacitação Física do Exército, dentro da Fortaleza de São João. 

O segundo, indicado como "Or"(ouro) está no meio do Morro da Urca, mais ou menos onde hoje é a residência do musicólogo Ricardo Cravo Albin, na Avenida São Sebastião. 

O terceiro e último aparece desenhado no meio da Baía de Botafogo. 

O mapa nunca foi publicado e, ao que se sabe, ninguém se aventurou a cavoucar tais tesouros. Caso algum colega resolva se aventurar a encontrá-los, irá esbarrar em muitas dificuldades, pois dois deles estão em território da união, guardados pelo Exército e Marinha, ficando o terceiro em área particular, mas protegida pelo "IBAMA".

Ouro, muito ouro, sob seus pés.

Em alguns pontos da nossa cidade pode haver muito ouro escondido. Pelo menos especula-se a existência de três baús cheios do precioso metal.

Contam que um colecionador de livros antigos encontrou um mapa dentro de um livro espanhol do século XVI. O livro foi comprado num sebo em Paris.

Os baús, segundo o mapa, estariam escondidos em locais próximos ao da fundação da nossa cidade. Um deles estaria na Urca, no exato local onde fica a Escola de Educação Física do Exército. O morro Cara de Cão esconderia outro desses cobiçados baús. O terceiro estaria em algum lugar da Praia de Botafogo.

Essa fortuna, se é que de fato existe, continua bem guardada esperando por algum aventureiro ou bafejado pela sorte que a encontre. Valerá a pena tentar?

 

* Prof. Milton Teixeira, historiador e arquiteto

 

Dados pouco conhecidos sobre o Pão de Açúcar

 

Os antigos moradores do Rio de Janeiro julgavam impossível o acesso ao pico do Pão de Açúcar. Foi, pois, um grande acontecimento a escalada feita em 1817 por uma senhora inglesa, Lady América Vespucia, que no alto do penhasco colocou um poste com a bandeira da Grã Bretanha.

Depois dessa ousada expedição, a 31 de outubro de 1851 o norte americano Burdell e dez companheiros, inclusive duas senhoras e um menino (Luiz Burdell), todos estrangeiros, escalaram a famosa escarpa, regressando após trinta horas de permanência naquelas alturas.

Com a criação da Escola de Aplicação Militar e seu aquartelamento na Praia Vermelha, tornaram-se freqüentes as excursões ao Pão de Açúcar, sendo das mais notáveis as que empreenderam os alunos da Escola Militar, em princípios de 1889, na chegada de D. Pedro II de sua viagem à Europa, colocando ali uma bandeira com a legenda "Salve", tendo cada letra sete metros. No mesmo ano, em 13 de outubro, por ocasião da visita, ao Rio de Janeiro, do navio chileno Almirante Cochrane, repetiu-se a difícil escalada. 

Anos antes, em 1883, o engenheiro americano Morris N. Kohn, propôs o plano de um elevador mecânico ou ponte de inclined suspension bridge, para transportar passageiros até o alto do Pão de Açúcar.

A portaria do Ministro da Agricultura, Conselheiro Henrique d`Avila, de 31 de janeiro de 1883, dirigida à Ilustríssima Câmara Municipal da Corte, submeteu o projeto à consideração do corpo da Câmara, merecendo parecer favorável dos vereadores Pinto Guedes, Emílio da Fonseca e Oliveira Brito, a 21 de março do mesmo ano. A concessão caducou sem nada ter sido feito.

Em princípio de 1889, o Ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, Rodrigo Augusto da Silva, submeteu à mesma Ilustríssima Câmara Municipal o projeto de um grupo de empresários ingleses propondo a concessão para desmontar o Pão de Açúcar e utilizar a pedra resultante em aterro a ser feito no bairro da Glória até o Centro. O parecer não chegou a ser emitido pelos vereadores haja vista a Proclamação da República, a 15 de novembro seguinte.

Em 1890, o Ministro da Argentina no Brasil, Dr. Henrique Moreno, sugeriu a ereção de uma estátua em homenagem à Cristóvão Colombo no cimo do Pão de Açúcar, sendo defendida essa ideia no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro pelo escritor João Severiano da Fonseca, irmão de Manuel Deodoro da Fonseca, Presidente do Brasil.

De acordo com o decreto no. 1.260, de 29 de maio de 1909, foi o Prefeito autorizado pelo Conselho Municipal a conceder, ao engenheiro civil Augusto Ferreira Ramos e outros, o direito exclusivo, pelo prazo de trinta anos, para construção e exploração de um caminho aéreo entre a antiga Escola Militar e o alto do morro da Urca, com ramais para o pico do Pão de Açúcar e para a chapada do morro da Babilônia.

A 30 de julho de 1909, assinou-se, na Prefeitura, sob a administração Serzedelo Corrêa, o respectivo contrato com o engenheiro Augusto Ferreira Ramos e Manoel Antônio Galvão, industrial, ambos domiciliados nesta cidade, e segundo o plano idealizado pelo engenheiro Fredolino Cardozo. 

A cada ano, o Pão de Açúcar perde 60 toneladas de rocha em média devido à erosão provocada pelas chuvas e vento.

 

* Prof. Milton Teixeira, historiador e arquiteto

 

A caverna do Pão de Açúcar

 

Todo o guia de turismo conhece esse morro, o mais característico da cidade, cantado e decantado mundialmente, com 395 metros de altura, galgados com facilidade pelo bondinho que vai ao seu topo desde 1913, e cujo nome é devido ao fato de os portugueses acharem-no parecido com as formas de barro onde se colhia o caldo de cana purificado nos engenhos coloniais.

O que poucos talvez saibam é que o Pão de Açúcar também possui uma enorme caverna, aberta por uma falha na rocha gnaissica há, pelo menos, um bilhão de anos, no costão batido pelo Oceano Atlântico, fora da barra. Ela é acessível por terra, por um caminho na rocha, depois da pista Cláudio Coutinho, como pelo mar, de caiaque. 

Menos gente ainda sabe que até a relativo pouco tempo ermitões nela residiam.

Desde os anos trinta, nela morou o português Eduardo de Almeida, que contava 58 anos em 1965, vivia da caça e pesca, inteiramente alheio à cidade e sua gente, as quais desconhecia por completo! Em princípios dos anos sessenta dividiu sua caverna com o casal Francisco de Brito e Isídia Maria da Conceição, mais sociáveis, pois vendiam mamão, laranja e banana que plantavam na encosta do morro aos frequentadores da Praia Vermelha. Todos foram desalojados pelos militares da Fortaleza de São João em 1968 e desde então só os morcegos a tem habitado.

 

* Prof. Milton Teixeira, historiador e arquiteto

 

Os donos de Botafogo

 

Quando, a dezesseis de julho de 1565, pouco mais de quatro meses após a fundação do Rio de Janeiro, Estácio de Sá finalmente definiu os limites da cidade. Esta possuía seu centro no "Morro do Castelo", terminando pela zona sul pouco antes do "Morro da Viúva", na casa de pedra erguida em 1503 onde hoje é a rua Cruz Lima, no Flamengo, pois dali até o "Morro da Babilônia", e da enseada até a Lagoa, tudo pertencia a seu dileto amigo Antônio Francisco Velho, "Mordomo da Arquiconfraria de São Sebastião" e fundador do Rio de Janeiro.

Pelo sistema colonial português, o governador podia conceder terras a seus amigos ao bel prazer, à revelia da "Câmara de Vereadores", isentas de impostos conquanto fossem as mesmas desenvolvidas e medidas. Eram as famosas "sesmarias", e Botafogo era um cobiçado presente de luxo aos apaniguados do poder. A "Câmara" sempre protestou contra esses protegidos, conseguindo até o retomo muitas áreas devolutas ao patrimônio público, mas ela mesma também fazia das suas, e ,só no século XVIII, tais concessões foram regularizadas, e, finalmente, a vereança soube quais eram realmente as terras públicas. Não por muito tempo.

Na madrugada de 20 de julho de 1790 lavrou furioso incêndio no prédio do "Senado da Câmara", que funcionava num casarão ao lado do "Arco do Telles", no "Largo do Paço", atual Praça XV. Esse incêndio, de efeito pirotécnico milagroso, atingiu apropriadamente os papéis referentes às propriedades territoriais públicas, escapando incólumes outros documentos.

 

O vereador Haddock Lobo apurou que o sinistro foi criminoso. Fora obra de alguns foreiros, com intuito de destruírem títulos e outros documentos que provavam o senhorio direto da Câmara sobre as posses que tinham. Apesar de toda a maracutaia que correu, conseguiu-se recompor os livros e a "Câmara" obteve do rei a Ordem Régia de 8 de janeiro de 1794 que lhe confirmavam todas as suas sesmarias. Mas mesmo assim muita coisa se perdeu, e inúmeras terras que eram públicas viraram particulares da noite para o dia.

 

No caso de Botafogo, a "Câmara" possuía os documentos em dia, e, já em 1681, haviam sido doados o Morro da Viúva e terras anexas ao Mosteiro de São Bento. A Fazenda São Clemente, que englobava o "miolo" do bairro, pagava 2$560 réis de foro ao poder legislativo, e de tudo era feito recibo. Conseguiu-se até, em 1794, levar aos tribunais o espertalhão Manoel Francisco de Mendonça, que, por meios pouco honestos, falseara documentos foreiros, se apoderara dos terrenos no "Caminho Velho de Botafogo" (atual rua Senador Vergueiro) e tentava cobrar foro dos moradores.

 

Mas a euforia dos vereadores pouco durou e, em 1808, com a chegada da Família Real, a roubalheira voltou.

 

O bairro valorizou-se bastante, haja vista que muitos fidalgos ali passaram a residir, a começar pela própria Rainha Carlota Joaquina, que foi morar na praia, num casarão erguido na esquina do "Caminho Novo" (atual rua Marquês de Abrantes). O último Vice-Rei do Brasil, D. Marcos de Noronha e Brito, Conde dos Arcos, conseguiu legislar em causa própria e se auto concedeu a "Fazenda da Olaria", que englobava nada mais nada menos toda a rua São Clemente e alguns terrenos vizinhos. Terras que seus herdeiros venderam em 1823 a um amigo do Rei D. João VI, o Comendador Joaquim Marques Batista de Leão, que nelas abriu em 1826 as ruas Nova de São Joaquim (atual Voluntários da Pátria), Real Grandeza, Marques e Largo dos Leões. O Conselheiro José Bernardo de Figueiredo, morador da praia, conseguiu sabe-se lá como, uma carta de doação e tornou-se dono de extensas terras na orla. Afinal, era parente de um poderoso Regente do Império... Outro "barnabé", José Guedes Pinto, conseguiu de D. João VI nada mais nada menos que o foral de quase todos os terrenos do "Caminho Novo" (atual rua Marquês de Abrantes), lotes que depois vendeu ao Marquês que batizaria a rua em definitivo. Um "sabido", o bacharel José Antônio de Oliveira e Silva, conseguiu levar boa parte das terras da Lagoa Rodrigo de Freitas, pois provara por "a" mais "b" que a água da Lagoa era doce (em verdade, é bem salobra), provando que tais propriedades não eram terrenos de marinha e nada devendo ao patrimônio municipal. Agindo assim, lesou a "Câmara", que perdeu a arrecadação tributária de toda a região.

 

Em meados do século XIX, devido aos muitos "espertos", eram poucos os grandes proprietários botafoguenses que pagavam foro à "Câmara". Os processos contestatórios na justiça foram tantos que nunca chegou-se a uma solução de consenso.

 

A propriedade territorial foreira de Botafogo até hoje é caótica e, pode-se dizer que a cada ano aparece um novo "dono do bairro" exigindo foros atrasados e apresentando cartas de doação sabe lá obtidas como. Se isso continuar, daqui a pouco serei eu a aparecer com mais uma. Afinal de contas, sou descendente direto do primeiro dono de tudo, o português Antônio Francisco Velho, que, no final das contas, imerecidamente, ficou sem nada, nem uma homenagem póstuma numa ruela do bairro.
 

 

* Prof. Milton Teixeira, historiador e arquiteto

A igreja matriz

 

Apenas oito meses depois de haver chegado ao Rio de Janeiro, recebeu o Príncipe D. João, em novembro de 1808, uma petição dos moradores da Lagoa e Botafogo solicitando a criação de uma paróquia na Zona Sul da cidade, já que a igreja mais próxima onde podiam celebrar os sacramentos era a de São José, no centro, o que demandava quase um dia de viagem. Aprovou D. João a ideia e depois de uma longa burocracia que durou quase seis meses( naqueles tempos a lentidão dos serviços públicos era de amargar...), foi expedido o Alvará Régio de 12 de maio de 1809 que criou a nova Freguesia de São João Batista da Lagoa, santo escolhido não por devoção local dos fiéis e sim por ser o onomástico de D. João( os nossos governantes daqueles tempos não primavam pela modéstia...).

A nova freguesia abarcava áreas que iam do bairro da Lapa até a distante Gávea, passando por Lagoa, Ipanema e Copacabana ou seja, toda a atual Zona Sul do Rio de Janeiro. Foi na mesma ocasião nomeado o primeiro vigário, o Reverendo Manuel Gomes Souto.

A única capela em condições de abrigar a nova freguesia era a antiga ermida de Nossa Senhora da Conceição, erguida antes de 1732 às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, no antigo Engenho de N. Sra. Da Conceição da Lagoa, e que fora desapropriado em junho de 1808 por D. João para ali se fundar a Real Fábrica de Pólvora da Lagoa e, posteriormente, o Real Horto Botânico, origem do nosso Jardim Botânico. O Engenho de N. Sra. Da Conceição era o segundo em antiguidade no Rio, cujas origens remontavam a 1575, fundado que foi pelo Governador Antônio de Salema com o nome de "Engenho D`El Rei". 

A capelinha era própria para um engenho, mas desde logo mostrou ser inconveniente como sede paroquial. Era afastada dos fiéis, de modestas dimensões, possuía pequeno campanário lateral e alpendre fronteiriço e, pior, colada à uma perigosa fábrica de pólvora. Como se fosse pouco, Monsenhor Souto a recebeu caindo aos pedaços. Em 1824 tentou-se comprar um terreno em Botafogo para se erguer nova matriz, mas faltou dinheiro. Para piorar, a capela não aguentou e desabou em 1826 após uma explosão da fábrica vizinha, forçando a transferência provisória da Matriz para a ainda menor Capela de São Clemente, que fora fundada em Botafogo no século XVII pelo Padre Clemente Martins de Matos em sua própria homenagem e que ainda há algumas décadas atrás se via no final da rua Viúva Lacerda. Da velha Capela da Conceição da Lagoa não há mais vestígios, haja vista que em seu local ergue-se o prédio da EMBRAPA, na rua Jardim Botânico.

As dificuldades financeiras abateram Padre Souto, que pediu e obteve sua exoneração em 1830. A situação começou a mudar ano seguinte, quando o Comendador português Joaquim Marques Batista de Leão doou um terreno de vinte braças de frente por quarenta de fundo na rua Nova de São Joaquim, inaugurada pelo próprio em 1826 e batizada em auto-homenagem, rua aberta em terras de sua chácara e que em 1871 ganharia o bonito nome de Voluntários da Pátria. No termo de doação especificava que ali também se ergueria o cemitério da Freguesia, coisa que não chegou a acontecer, já que em 1850 foram proibidos enterros nos templos.

Em 24 de junho de 1831 foi lançada a pedra fundamental do novo templo pelo Bispo do Rio de Janeiro D. José Caetano da Silva Coutinho, tendo ele próprio e depois de sua morte seus descendentes feitas grandes doações pecuniárias para o rápido erguimento da Matriz. O projeto da igreja coube ao Major engenheiro Beaurepaire Rohan, tendo sido inaugurada a Capela Mór em 1836 e no ano seguinte a do Santíssimo, que foram convenientemente paramentadas quando se organizou a primeira procissão em 1841. Em 1858 o Major Rohan abriu a fronteira rua da Matriz para lhe dar maior realce à fachada. Por volta de 1860, com o templo ainda em obras, o Vigário José Correia de Sá Coelho transferiu a pia batismal para a nova sede, abandonando de vez a Capela de São Clemente. Em 1862 assume o vicariato Monsenhor Francisco Martins do Monte, padre ativo, misto de intelectual e aventureiro( foi um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e dos primeiros a escalar a Pedra da Gávea para examinar supostas inscrições fenícias.), que terminou as obras da igreja em 1864, depois de 33 anos de labutas.

O belo e artístico Altar Mór neoclássico executado em pinho de Riga deve ter sido inaugurado na mesma ocasião. O crescimento do rico bairro de Botafogo logo motivou aos fiéis a ampliação do templo, iniciada em 1873 com uma nova fachada monumental em pedra gnaiss, projetada em estilo neoclássico pelo arquiteto Francisco Joaquim Bethencourt da Silva, então um dos mais afamados do Império. Dois anos depois já estavam prontas a Capela Mór com seus finíssimos estuques, a Capela do Santíssimo( hoje desmontada), as paredes laterais, que foram aumentadas em altura e ornadas com belos altares de mármore( hoje desaparecidos) e a imponente frontaria de gnaiss da Pedreira do Morro da Viúva. Finalmente, em 24 de julho de 1875 é elevada com festas a cruz sobre o frontispício, Passando-se então aos acabamentos internos, tendo o último dos seis altares laterais de mármore de Carrara ficado pronto somente neste século.

O templo não tinha torres sendo em 1877 iniciadas as obras da torre sineira do lado do Evangelho, logo depois foi a vez da torre da Epístola. Em 1880 ambas foram redesenhadas pelo arquiteto espanhol Adolfo Morales de Los Rios e completadas entre 1895 e 1900. Em 1907 foi colocado um relógio europeu na torre da Epístola, mas os três sinos da igreja só foram fundidos pelo Arsenal de Marinha e colocados nas sineiras em 1947. Em princípios deste século foi instalado na Matriz seu famoso órgão, considerado ainda hoje pelos especialistas como o melhor do Rio de Janeiro. Inicialmente ele foi confiado ao organista inglês Harcourt de Saville. Depois passou às mãos de D. Nadyr leite e D. Maria Inês Cardoso Pereira, exímias artistas nacionais.

Quase destruíram o templo por uma obra infeliz em 1958, quando do alargamento da rua, tem sido a bela Igreja Matriz de Botafogo restaurada desde 1967 por Monsenhor Arlindo Thiessen, que salvou o que pôde e impediu, com obras emergenciais, que a formosa fachada pétrea desabasse sobre a via pública.

A Matriz foi tombada pelo Município em 09 de setembro de 1987, achando-se novamente em processo de restauração, sendo remontados o antigo batistério e Capela do Santíssimo, tudo isso com amplo apoio da comunidade botafoguense que, assim, zela pela preservação do mais importante e cenicamente expressivo bem cultural de nosso bairro.

 

* Prof. Milton Teixeira, historiador e arquiteto

 
 

Grandes amores da Zona Sul

 

Carlota Joaquina, Princesa do Brasil, filha do Rei Carlos V de Espanha e de Da. Maria Luísa de Parma, nasceu em 1775, mas casou-se por conveniência política dez anos depois com o Príncipe português D. João.

 

Não foi feliz no casamento e, apesar de ter-lhe dado dois filhos (Teresa e Pedro, futuro Imperador do Brasil), logo se desentendeu com o marido, chegando em 1796 a morar em palácios separados. Passou desde então a encontrar-se com amantes, com quem teve mais sete filhos.

 

Vindo para o Brasil em 1808, com a fuga da Família Real, trouxe para cá seu comportamento escandaloso, morando em várias casas, mas nunca com o marido em São Cristóvão, com quem só se encontrava em poucas cerimônias oficiais. 

 

Das casas, as que mais apreciava eram as da Zona Sul. Possuía palacete suntuoso na esquina do "Caminho Novo de Botafogo"(rua Marquês de Abrantes) com a praia, bem como outra morada, na rua das Laranjeiras, perto do Largo do Machado. Era seu vizinho fronteiro em Laranjeiras o português dos Açores José Fernando Carneiro Leão(1782-1832), homem jovem e bonito. Tornaram-se amantes. Leão seria galgado ao posto de Diretor do Banco do Brasil e teria o título de Conde de Vila Nova de São José, por Decreto Imperial de 12 de outubro de 1826.

 

Era casado com Da. Gertrudes Angélica Pedra Leão, que armou "barraco" certa vez quando encontrou Carlota Joaquina na rua. A Princesa jurou vingança. Em 1819, quando Gertrudes saía de uma missa numa capela próximo ao que hoje se chama Praça José de Alencar, foi alvejada por um tiro, disparado pelo bandoleiro "Orelha". Preso o assassino e descoberto o mandante, D. João pediu o processo e queimou-o, não sem antes dizer "mais um crime desta pérfida mulher..."

 

Carlota voltou para Portugal em 1821, junto com a Corte. Ficou viúva em março de 1826, enlouquecendo depois. Suicidou-se em 1830 tomando veneno. Fernando baixaria ao túmulo dois anos depois, mas seria enterrado ao lado de Da. Gertrudes, no Mosteiro de São Bento.

 

* Prof. Milton Teixeira, historiador e arquiteto

As ligas de dona Gertrudes

 

A 29 de agosto de 1825, D. Pedro I conseguira o que até então alguns achavam impossível: depois de muitas negociações, Portugal e Inglaterra finalmente reconheciam nossa Independência. Naquele ano, portanto, o desfile cívico do dia 12 de outubro teria um significado especial (naquela época nossa Independência era comemorada a 12 de outubro, data da Aclamação do Imperador).

Ora, a tropa que abria o desfile era a dos temidos mercenários alemães, contratados a peso de ouro na Europa e cujo quartel na Praia Vermelha era comandado pelo Major Von Ewald. Alcoólatra e falastrão, Von Ewald pouco antes tomara-se de amores por uma famosa prostituta da época, Dona Gertrudes de tal, que enriquecera com o comércio do corpo junto à nobreza e morava por isso em ótima chácara na Praia de Botafogo.

Gertrudes inicialmente o repeliu, mas Ewald, espertamente, organizara desfiles da tropa diante de sua casa e, impressionada com o gesto do Major, nossa rameira cedeu aos seus amores (será que vem daí a expressão "topou a parada"?).

No dia do desfile da Independência, especialmente festivo naquele ano, a tropa dos alemães entrou toda garbosa no Campo de Santana trajando seu melhor uniforme. Porém, logo o povo era tomado de estupefação geral. Na bandeira do Brasil ostentada pelo batalhão, pendia um apetrecho nada cívico: as ligas de Dona Gertrudes; ali colocadas por Von Ewald como prova de amor à sua exigente meretriz. Até para D. Pedro I, famoso por seus amores extraconjugais, o caso fora longe demais. Logo após o desfile, mandou prender Von Ewald, rebaixou-o de posto e submeteu-o a severa punição com surra de vara. 

Ewald fugiu mas foi capturado e preso. Entretanto, depois de algum tempo e, talvez, premido pela consciência, D. Pedro I o perdoou e tudo ficou como antes. Afinal, naquele mesmo ano, nosso Imperador mantinha com os cofres públicos duas amantes não muito melhores que Dona Gertrudes: a Marquesa de Santos e sua irmã, a Baronesa de Sorocaba.

Naquela época todos os escândalos da nação terminavam em pizza.

 

* Prof. Milton Teixeira, historiador e arquiteto

 
 

Rui Barbosa e Maria Augusta

 

Rui Barbosa nasceu em Salvador, Bahia, a 05 de novembro de 1849. Jovem brilhante, distinguiu-se já em seus estudos para advocacia na Escola do Largo de São Francisco, em São Paulo. Jornalista, abolicionista e defensor dos direitos individuais do cidadão, foi prócer da Abolição e figura destacada na República, não só como ministro da fazenda e como autor da Constituição de 1891, assim também, como representante do país na Conferência Internacional de Haia, na Holanda em 1908, onde se distinguiu.

Rui casara-se a 23 de novembro de 1876, depois de longo e epistolar noivado, com Da. Maria Augusta Vianna Bandeira, casamento feliz que lhe deu dois filhos, João e Alfredo; e três filhas: Maria Adélia Batista Pereira, Francisca Airosa e Maria Vitória Guerra "Baby".

Até 1893 Rui, apesar de ministro e homem importante, morava em casa alugada. Neste ano, adquire do cidadão inglês John Roscoe Allen, por grande quantia paga em duas promissórias, a enorme propriedade da rua São Clemente, que fora erguida para o Barão da Lagoa em 1850, cercada com enorme parque extenso de 10.000 m2. 

Contratou o engenheiro arquiteto e amigo Comendador Antônio Januzzi para reformá-la, mas teve de ficar distante haja vista ter se incompatibilizado com o governo do Marechal Floriano Peixoto, quando teve de se exilar na Europa. Tendo retornado em 1897, passou a residir na rua São Clemente, cercado pela família e pelos livros(36.000!). Nos jardins, mantinha extenso roseiral.

Cansado das lides políticas e dos falsos amigos, Rui residiu seus últimos dias em Petrópolis, onde faleceu cercado pela esposa que tanto amava e filhos, no dia 1º de março de 1923.

Ainda em 1897, batizou sua nobre morada de "Villa Maria Augusta" em homenagem à esposa, com quem viveu em idílio por mais de 46 anos.

 

* Prof. Milton Teixeira, historiador e arquiteto

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