A área correspondente à Favela
Santa Marta era parte da chácara de Francisco José
Teixeira Leite, Barão de Vassouras(1804-84), um mineiro sãojoanense
que na hora certa trocou o ouro pelo café, granjeando enorme
fortuna no Vale do Paraíba. Casou-se duas vezes. Sua segunda
esposa, Da. Ana Alexandrina, trinta anos mais jovem que ele, era
dada a acessos de loucura. Freqüentemente saía à
rua sem roupas, o que causava ao Barão grande constrangimento.
Sua casa na São Clemente era, por isso, bem afastada da rua,
cercada de frondosas árvores e amplo jardim fronteiro, exatamente
onde hoje está a Praça Barão de Macaúbas.
Aliás, falando dele, foi o proprietário
seguinte da chácara do Barão de Vassouras. Abílio
Cesar Borges (1824-91) era médico e educador, tendo fundado
em Laranjeiras o Colégio Abílio, onde estudou Raul
Pompéia (e inspirou seu livro "O Ateneu"). O Imperador
D. Pedro II agraciou-o em 1881 com o título de Barão
de Macaúbas. Quando morreu, sua imensa propriedade ficou
fechada alguns anos.
Os padres jesuítas fundaram em
1901 o Colégio Santo Inácio, que no primeiro ano funcionou
numa casa na Rua Senador Vergueiro. Em 1903 alugaram (e depois compraram)
a casa nº 226 (antigo 132) da rua São Clemente, onde
morou o comerciante Carlos Guilherme Gross. Em 1908, com o sucesso
do colégio, ampliaram suas instalações comprando
chácaras vizinhas, inclusive a que foi do Barão de
Macaúbas. Tomadas por um capinzal, passaram a extraí-lo
para venda, com o que ganharam alguns recursos. Em 1915 a Prefeitura
mandou cortar todo o capinzal com receio de incêndios, passando
então aquelas terras a serem usadas como local de recreio
dos alunos.
Desde 1908 dirigia o colégio Padre
José Maria Natuzzi, que sempre preocupou-se com as instalações
restritas da velha casa, ampliando-a à partir de 1909. Em
1915 é inaugurada a nova capela e ampliado de muito as velhas
instalações. A Primeira Guerra Mundial impossibilitou
a continuação das obras. Em 1924 as obras foram recomeçadas,
sob a direção do engenheiro arquiteto Padre Camilo
Armelini.
Desde 1924 Padre Natuzzi, homem piedoso,
permitia que operários pobres e suas famílias estabelecessem
moradia no Morro Dona Marta. Em 1929, com a queda dos preços
do café no mercado mundial, muitos agricultores pobres do
Vale do Paraíba migraram para o Rio. Padre Natuzzi acolheu
a muitos, destinando-os ao Morro Dona Marta. Na mesma época,
recrudesceram as obras do colégio e capela, sendo em 1931
inaugurado o novo altar de Santo Inácio e em 1939, a ala
esquerda do colégio. E claro, Padre Natuzzi inaugurou igualmente,
sem querer nem saber, a favela do Morro Dona Marta. .
Em verdade, a primeira favela de Botafogo
não foi ali. Já o recenseamento de 1920 registrava
a existência de 63 barracos no Morro São João.
Treze anos depois, São João estava deserto. Todos
migraram para o Dona Marta atraídos pela oferta de trabalho
nas obras do colégio e terras no morro oferecidas pela bondade
de Padre Natuzzi.
Como as obras duraram por quase trinta
anos, emprego houve para essa gente. Durante muitos anos viveu a
população favelada em paz, intocada pelos políticos,
que não se interessavam por ela. Com o crescimento da vizinha
Copacabana e a orla de Botafogo, surgiram muitos prédios
altos e, é claro, trabalho para muitos. Já em 1950,
o censo realizado naquele ano registrava 1632 habitantes no Dona
Marta, sendo 787 homens e 845 mulheres. 1355 eram maiores de cinco
anos. Destes, 627 sabiam ler e escrever e 728 eram analfabetos.
Em 1960, com a criação
do Estado da Guanabara, o Governador Carlos Lacerda desenvolveu
enorme campanha de erradicação de favelas. O objetivo
era pouco nobre. Não era propriamente dar melhores condições
de vida à aquela gente, e sim liberar os valorizados terrenos
de encosta para especulação imobiliária, então
em franca ascensão na zona sul.
Em Botafogo, foram removidas as favelas
do Pasmado e Macedo Sobrinho, sendo que, o sucessor de Lacerda,
Negrão de Lima, eliminaria a da Catacumba, na Lagoa, onde
hoje está o Parque Marcos Tamoyo. Dona Marta escapou haja
vista sua estabilidade já consolidada no bairro e a propriedade
dos terrenos, em mãos dos jesuítas e fora do processo
especulativo. O governo chegou até a construir uma escola,
inaugurada em outubro de 1968 pela Rainha Elizabeth II da Inglaterra,
que visitou a favela. Entretanto, essa escola era de tão
precária construção que, literalmente, só
durou o tempo da visita da rainha. Valeu apenas o episódio
para unir os moradores em defesa de suas casas e direitos, mostrando
que não eram diferentes dos outros cariocas, atividade que
prenunciou as famosas associações de moradores.
Em 1977, após a fusão da
Guanabara com o Estado do Rio de Janeiro, o Prefeito Marcos Tamoyo
não falava mais em remoção, mas reurbanização.
Entretanto, somente seu sucessor, o Prefeito Israel Klabin definiu
bem o que era isso em 1979. Deixar os moradores em paz, colocando
infra-estrutura, esgotos e demais serviços públicos.
Em 1979, existiam no Morro (ainda) Dona Marta 2421 habitações,
com população estimada de 12.105 habitantes, que se
espalhavam por uma área de 55.540m2. Era a maior das oito
favelas do bairro, acumulando 2/3 da população favelada
de Botafogo, com média de 1.051 habitantes por hectare.
Em 1980, os moradores da favela Dona
Marta se uniram e resolveram rebatizá-la para Santa Marta.
No ano de 1985, o famoso ISER - Instituto Social de Estudos da Religião
realizou o famoso longa-metragem "Santa Marta - Duas Semanas
no Morro", com uma hora de duração, filme que
causou grande sensação, ainda mais que um dos adolescentes
entrevistados seria no futuro o famoso traficante "Marcinho
VP".
O empobrecimento geral do país
na década de oitenta e um governo estadual excessivamente
tolerante permitiram que o tráfico de tóxicos estabelecesse
no morro importante quartel general. Apesar da proximidade do 2º
Batalhão da Polícia Militar, nada de concreto se pôde
fazer para deter a ascensão de meliantes cujos nomes eram
substituídos por apelidos repetidos em grandes manchete:
"Bolado", "Pedrinho da Prata" e o famigerado
"Marcinho VP", que chegou a ser o primeiro traficante
a obter financiamento de um banqueiro para escrever um livro.
Se, por um lado, o Santa Marta possui
essa face perigosa, muito mais interessante é sua importância
cultural. Há trinta e cinco anos atrás surgiu em seus
barracos a primeira agremiação de samba da zona sul,
o bloco "Unidos da São Clemente", que ascendeu
na década de setenta à categoria de escola de samba,
atingindo ao primeiro grupo no fim da década, onde chegou
a ameaçar suas tradicionais coirmãs. Em 1992 surgiria
a segunda agremiação do morro, a "Mocidade Unida
do Santa Marta". Não é nada não é
nada, são poucas as comunidades que podem se orgulhar de
possuir duas agremiações de samba !
Em 1995 visitou a favela e gravou um
importante vídeo-clip o pop-star Michael Jakson, com direção
do não menos famoso, cineasta Spike Lee. As recentes e bombásticas
revelações do envolvimento entre um grande banqueiro
e o traficante chefe da favela levam a crer que a cidade não
está tão partida assim como os sociólogos acusam.
Enquanto sociólogos, banqueiros,
traficantes e policiais brigam entre si, a população
do Santa Marta deseja apenas participar da palpitante cidade que
os circundam, e da qual já fazem parte indissociável. |