Em 17 de janeiro de 1628 era batizado na
Igreja Matriz de São Sebastião, no Morro do Castelo,
o inocente Clemente Martins de Matos, segundo filho do Capitão
e Vereador Álvaro de Matos e de Da. Marta Filgueira. Foram
padrinhos os avôs maternos, D. Antônio Martins Palma
e Da. Leonor Gonçalves, o casal que em cumprimento de uma
promessa edificou a Igreja de Nossa Senhora da Candelária,
em 1609.
Como era costume naqueles tempos, o filho
mais velho herdava a profissão do pai, ficando Clemente destinado
a ser padre, profissão de muito prestígio, haja vista
ser a igreja ligada ao estado. Clemente, ainda adolescente, foi
matriculado em seminário lisboeta. Lá não completaria
seus estudos, sendo expulso, ao que se consta, por ter se envolvido
com mulheres. Com ajuda do avô rico e do pai, Capitão
e Vereador, terminou Clemente seus estudos num seminário
em Roma, voltando ao Rio por volta de 1650 como padre, mas pobre
como um monge.
Por influência familiar, logo Clemente
abiscoitou importantes cargos no cabido da Sé, sendo nomeado
Vigário Geral, Arcediago e Tesoureiro-Mór (naqueles
tempos, todo cargo importante no Brasil era obtido por "pistolão"),
atividades bem remuneradas e de grande projeção pessoal,
principalmente depois de 1676, pois nesse ano foi criado o bispado
do Rio de Janeiro, sendo Clemente a figura logo abaixo do Bispo,
substituindo-o em suas ausências.
Como tesoureiro, Padre Clemente foi um
desastre, pois durante sua gestão deixou o velho prédio
da Sé cair aos pedaços a ponto de ser interditado
e, finalmente, abandonado em 1703. Entretanto, Clemente ficou rico
o suficiente para adquirir em 1680 a sesmaria de Botafogo, cujas
terras tinham como limite a Enseada de Botafogo, a "Lagoa de
Sacopenapã" (rebatizada em 1703 para Rodrigo de Freitas,
seu dono), bem como os morros que depois se chamaram de São
João e Santa Marta. Fundou Clemente a "Fazenda do Vigário
Geral", ou de "São Clemente", numa imodesta
homenagem ao seu santo onomástico. Não satisfeito,
ergueu em suas terras uma capela dedicada a São Clemente,
que existiu até o princípio do século XX, no
final da Rua Viúva Lacerda. Como se fosse pouco, abriu Clemente
um caminho da Enseada de Botafogo até sua capela, caminho
batizado de..... São Clemente!
Em homenagem à sua veneranda mãe,
que morreu no Rio de Janeiro em 1698 aos 92 anos (idade excepcional
para a época), Clemente batizou o morro circundante de suas
posses como "Morro Dona Marta". Nome que ficou até
época recente. Em 1980, os favelados da "Favela Dona
Marta", surgida em 1930 e hoje uma das mais conhecidas na cidade,
em comum acordo, rebatizaram o morro para "Santa Marta",
o que deve muito ter agradado o Padre Clemente, esteja ele onde
estiver.
Padre Clemente faleceu a 8 de junho de
1702, aos 74 anos, sendo velado e enterrado na Igreja Matriz que
tanto se descuidara enquanto tesoureiro. No ano seguinte, o Bispo
Frei Francisco de São Jerônimo transferiria a Sé,
da arruinada Igreja de São Sebastião, para a Capela
da Santa Cruz dos Militares, na "Rua Direita", atual Primeiro
de Março.
Herdou as terras de Botafogo o irmão
de Clemente, Francisco Martins, que foi quem vendera, já
muito antes, em 1606, outras terras ao casal Afonso Fernandes e
Domingas Mendes, casal que devia gostar de praia, pois no mesmo
ano adquiriram, da Câmara, as terras que iam do Leme ao Leblon.
Em 1609, Da. Domingas, já viúva, doou todas as suas
terras à Câmara dos Vereadores, tendo esta arrendado
tudo ao Governador Geral Martim de Sá, que não esquentou
com elas. Martim de Sá, em 1611, arrendou a orla oceânica
ao dono do "Engenho de Nossa Senhora da Conceição
da Lagoa", Sebastião Fagundes Varela, que destinou a
orla ao pasto de suas vacas, que ruminavam entre cajueiros, pitangueiras
e ananases.
Quanto às terras de Botafogo,
foram arrendadas ao casal Pedro Fernandes Braga e Da. Bárbara
Corrêa Xavier, que a retalharam toda e venderam os lotes.
Nada de importante se fez nelas até
1808, quando, com a chegada da Corte portuguesa, Botafogo torna-se
bairro da nobreza. Em 1819 as terras correspondentes à maior
parte da Rua São Clemente, são compradas por D. Marcos
de Noronha e Brito, Conde dos Arcos, último Vice-Rei do Brasil,
que ganha muito dinheiro com elas, loteando-as e vendendo a outros
nobres. |