Apenas oito meses depois de haver chegado
ao Rio de Janeiro, recebeu o Príncipe D. João, em
novembro de 1808, uma petição dos moradores da Lagoa
e Botafogo solicitando a criação de uma paróquia
na Zona Sul da cidade, já que a igreja mais próxima
onde podiam celebrar os sacramentos era a de São José,
no centro, o que demandava quase um dia de viagem. Aprovou D. João
a idéia e depois de uma longa burocracia que durou quase
seis meses( naqueles tempos a lentidão dos serviços
públicos era de amargar...), foi expedido o Alvará
Régio de 12 de maio de 1809 que criou a nova Freguesia de
São João Batista da Lagoa, santo escolhido não
por devoção local dos fiéis e sim por ser o
onomástico de D. João( os nossos governantes daqueles
tempos não primavam pela modéstia...).
A nova freguesia abarcava áreas
que iam do bairro da Lapa até a distante Gávea, passando
por Lagoa, Ipanema e Copacabana ou seja, toda a atual Zona Sul do
Rio de Janeiro. Foi na mesma ocasião nomeado o primeiro vigário,
o Reverendo Manuel Gomes Souto.
A única capela em condições
de abrigar a nova freguesia era a antiga ermida de Nossa Senhora
da Conceição, erguida antes de 1732 às margens
da Lagoa Rodrigo de Freitas, no antigo Engenho de N. Sra. Da Conceição
da Lagoa, e que fora desapropriado em junho de 1808 por D. João
para ali se fundar a Real Fábrica de Pólvora da Lagoa
e, posteriormente, o Real Horto Botânico, origem do nosso
Jardim Botânico. O Engenho de N. Sra. Da Conceição
era o segundo em antigüidade no Rio, cujas origens remontavam
a 1575, fundado que foi pelo Governador Antônio de Salema
com o nome de "Engenho D`El Rei".
A capelinha era própria para
um engenho, mas desde logo mostrou ser inconveniente como sede paroquial.
Era afastada dos fiéis, de modestas dimensões, possuía
pequeno campanário lateral e alpendre fronteiriço
e, pior, colada à uma perigosa fábrica de pólvora.
Como se fosse pouco, Monsenhor Souto a recebeu caindo aos pedaços.
Em 1824 tentou-se comprar um terreno em Botafogo para se erguer
nova matriz, mas faltou dinheiro. Para piorar, a capela não
agüentou e desabou em 1826 após uma explosão
da fábrica vizinha, forçando a transferência
provisória da Matriz para a ainda menor Capela de São
Clemente, que fora fundada em Botafogo no século XVII pelo
Padre Clemente Martins de Matos em sua própria homenagem
e que ainda há algumas décadas atrás se via
no final da rua Viúva Lacerda. Da velha Capela da Conceição
da Lagoa não há mais vestígios, haja vista
que em seu local ergue-se o prédio da EMBRAPA, na rua Jardim
Botânico.
As dificuldades financeiras abateram Padre
Souto, que pediu e obteve sua exoneração em 1830.
A situação começou a mudar ano seguinte, quando
o Comendador português Joaquim Marques Batista de Leão
doou um terreno de vinte braças de frente por quarenta de
fundo na rua Nova de São Joaquim, inaugurada pelo próprio
em 1826 e batizada em auto-homenagem, rua aberta em terras de sua
chácara e que em 1871 ganharia o bonito nome de Voluntários
da Pátria. No termo de doação especificava
que ali também se ergueria o cemitério da Freguesia,
coisa que não chegou a acontecer, já que em 1850 foram
proibidos enterros nos templos.
Em 24 de junho de 1831 foi lançada
a pedra fundamental do novo templo pelo Bispo do Rio de Janeiro
D. José Caetano da Silva Coutinho, tendo ele próprio
e depois de sua morte seus descendentes feitas grandes doações
pecuniárias para o rápido erguimento da Matriz. O
projeto da igreja coube ao Major engenheiro Beaurepaire Rohan, tendo
sido inaugurada a Capela Mór em 1836 e no ano seguinte a
do Santíssimo, que foram convenientemente paramentadas quando
se organizou a primeira procissão em 1841. Em 1858 o Major
Rohan abriu a fronteira rua da Matriz para lhe dar maior realce
à fachada. Por volta de 1860, com o templo ainda em obras,
o Vigário José Correia de Sá Coelho transferiu
a pia batismal para a nova sede, abandonando de vez a Capela de
São Clemente. Em 1862 assume o vicariato Monsenhor Francisco
Martins do Monte, padre ativo, misto de intelectual e aventureiro(
foi um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro e dos primeiros a escalar a Pedra da Gávea para
examinar supostas inscrições fenícias.), que
terminou as obras da igreja em 1864, depois de 33 anos de labutas.
O belo e artístico Altar Mór
neoclássico executado em pinho de Riga deve ter sido inaugurado
na mesma ocasião. O crescimento do rico bairro de Botafogo
logo motivou aos fiéis a ampliação do templo,
iniciada em 1873 com uma nova fachada monumental em pedra gnaiss,
projetada em estilo neoclássico pelo arquiteto Francisco
Joaquim Bethencourt da Silva, então um dos mais afamados
do Império. Dois anos depois já estavam prontas a
Capela Mór com seus finíssimos estuques, a Capela
do Santíssimo( hoje desmontada), as paredes laterais, que
foram aumentadas em altura e ornadas com belos altares de mármore(
hoje desaparecidos) e a imponente frontaria de gnaiss da Pedreira
do Morro da Viúva. Finalmente, em 24 de julho de 1875 é
elevada com festas a cruz sobre o frontispício, Passando-se
então aos acabamentos internos, tendo o último dos
seis altares laterais de mármore de Carrara ficado pronto
somente neste século.
O templo não tinha torres sendo
em 1877 iniciadas as obras da torre sineira do lado do Evangelho,
logo depois foi a vez da torre da Epístola. Em 1880 ambas
foram redesenhadas pelo arquiteto espanhol Adolfo Morales de Los
Rios e completadas entre 1895 e 1900. Em 1907 foi colocado um relógio
europeu na torre da Epístola, mas os três sinos da
igreja só foram fundidos pelo Arsenal de Marinha e colocados
nas sineiras em 1947. Em princípios deste século foi
instalado na Matriz seu famoso órgão, considerado
ainda hoje pelos especialistas como o melhor do Rio de Janeiro.
Inicialmente ele foi confiado ao organista inglês Harcourt
de Saville. Depois passou às mãos de D. Nadyr leite
e D. Maria Inês Cardoso Pereira, exímias artistas nacionais.
Quase destruíram o templo por uma
obra infeliz em 1958, quando do alargamento da rua, tem sido a bela
Igreja Matriz de Botafogo restaurada desde 1967 por Monsenhor Arlindo
Thiessen, que salvou o que pôde e impediu, com obras emergenciais,
que a formosa fachada pétrea desabasse sobre a via pública.
A Matriz foi tombada pelo Município
em 09 de setembro de 1987, achando-se novamente em processo de restauração,
sendo remontados o antigo batistério e Capela do Santíssimo,
tudo isso com amplo apoio da comunidade botafoguense que, assim,
zela pela preservação do mais importante e cênicamente
expressivo bem cultural de nosso bairro.
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