A abertura de uma avenida que beirasse
a orla da baía de Guanabara sempre esteve nos planos do prefeito
Pereira Passos. Já em princípios de 1903, quando apresentou
seu "modesto" plano de obras para a remodelação
da cidade, ela já estava delineada em sua forma definitiva.
Entretanto, como o orçamento da prefeitura estava em contados
40$000 contos de réis, e que deveriam dar para obras em quarenta
e cinco outros logradouros da cidade, fora a abertura de novas vias,
mandou o prefeito executar a avenida Beira Mar por partes, que ficaram
prontas em épocas distintas. Seria um avanço de 33
metros sobre a orla original da cidade, começando a nova
artéria na Rua de Santa Luzia, ao lado da serraria do prefeito,
e terminando na Praia de Botafogo, junto ao Morro do Pasmado. Num
pequeno trecho ela não margearia o mar, exatamente à
volta do Morro da Viúva, fazendo-se a ligação
da Praia do Flamengo com Botafogo por uma via interna, a qual, na
falta de um nome melhor, ganhou o de "Avenida de Ligação".
Desde 1917 a mesma se chama Oswaldo Cruz, em homenagem ao famoso
médico sanitarista que residia na Praia de Botafogo.
Como em 1903 o bairro de Botafogo
era um dos mais importantes da cidade, haja vista o enorme número
de personalidades que ali residiam, a orla do bairro teve um destaque
especial, sendo ali abertas três pistas: duas com piso de
asfalto, para automóveis; e uma de areia, para cavalos, bem
como a construção de jardins floridos, dois teatros
de marionetes, um pavilhão de regatas e um pavilhão
restaurante, este último, junto com um de teatrinhos, colado
no Morro do Pasmado, e funcionando como um fechamento visual da
avenida. A 15 de setembro de 1903, o inspetor do Departamento de
Matas e Jardins, Caça e Pesca, Dr. Júlio Furtado apresentou
ao prefeito a planta dos jardins, de inspiração francesa,
desenhada por Paul Villon para a orla botafoguense. Os dois pavilhões
e teatrinhos seriam executados em ferro e encomendados na França,
mas sob projeto do arquiteto brasileiro Alfred Burnier.
Os aterros foram realizados com entulho
das demolições efetuadas por toda a área central
da cidade, bem como alguma terra do Morro do Senado. Entretanto,
como foi dito acima, a primeira parte da avenida a ficar pronta
foi a orla de Botafogo, seguida pela Lapa e por último Flamengo
e Avenida de Ligação. No mesmo dia em que o Presidente
Rodrigues Alves inaugurava a Avenida Central, a 15 de novembro de
1905, era inaugurada a orla de Botafogo, já com a muralha
em pedra, os jardins e pavilhão de regatas prontos. A solenidade
contou com a presença do Presidente da República e
foi marcada por uma regata que conglomerou todas as associações
do gênero existentes no Rio de Janeiro. Como naquele tempo
o banho de mar ainda não era um hábito arraigado entre
nós, o prefeito aterrou totalmente a praia, a qual somente
ressurgiu em pequeno trecho na década de 40 e totalmente
restaurada pelo Governador Carlos Lacerda, na década de sessenta.
Somente a 15 de novembro de 1906
foi inaugurada a avenida do Centro a Botafogo, com uma "carreata".
Em 1903, quando as obras começaram, somente existiam licenciados
seis automóveis. Em 1905, quando da inauguração
da Avenida Central e da orla de Botafogo, eram 40. Em 1906, eram
153 veículos. No ano de 1907, o Prefeito Souza Aguiar inaugurou
o Pavilhão Mourisco, junto ao Morro do Pasmado, exatamente,
onde hoje está uma passarela de ferro junto ao moderno Centro
Empresarial Mourisco.
Nesses cem anos, a orla passou por
outras transformações. Carlos Sampaio fez a avenida
contornar o Morro da Viúva em 1922, dando-lhe o nome de Avenida
Rui Barbosa. Em 1928 o Pavilhão de Regatas foi desmontado,
como imprestável. Os dois teatrinhos sumiram pela mesma época.
O Pavilhão Mourisco resistiu até 1951, quando foi
demolido para a abertura do túnel do Pasmado. Os jardins
foram remodelados inúmeras vezes, geralmente para pior. O
atual desenho é da lavra de Burle Marx, e data de 1965. Em
1953, o Prefeito João Carlos Vidal dotou a orla praiana de
mais duas pistas, e, finalmente, em 1963, foi-lhe refeita a praia
que fôra arrasada sessenta anos antes.
As belas mansões que margeavam
a praia foram quase todas demolidas a partir da década de
cinqüenta, sendo substituídas por edifícios modernos
que, com raras e honrosas exceções, são todos
horrendos!
Mesmo com todas essas intervenções
e alguns atentados ao bom gosto, a orla de Botafogo continua a ser
uma das mais lindas do Rio, emoldurando com rara felicidade o cartão
postal formado pela trilogia de morros Pão de Açúcar,
Urca e Cara-de-Cão, numa delicada praia em curva que enaltece
a baía de Guanabara e que se tornou padrão visual
mundial da Cidade do Rio de Janeiro.
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