| Fazendo parte da freguesia
rural de São João Batista da Lagoa, que
compreendia a maior parte dos atuais bairros da Zona
Sul carioca, o arrabalde de Botafogo, ate o final do
século XVIII, não tinha um papel muito
expressivo na cidade do Rio de Janeiro. Suas terras
compunham a Fazenda do Vigário Geral, de propriedade
de Clemente Martins de Mattos. Com a morte deste, em
1702, elas sofrem seu primeiro processo de repartição,
dando origem a três chácaras: a da Olaria,
compreendendo a maior parte do atual bairro de Botafogo,
a do Outeiro e a do Vigário Geral.

A instalação da Corte Portuguesa no Rio
de Janeiro, em 1808, provoca a expansão das funções
administrativas da capital da colônia, assim como
a abertura dos portos e a conseqüente intensificação
das atividades comerciais. Botafogo passa a abrigar
as camadas abastadas da população que
se deslocam das freguesias centrais em busca de seu
clima agradável e do encanto de suas belezas
naturais.
A Fazenda da Olaria foi adquirida inicialmente pelo
Conde dos Arcos, último vice-rei do Brasil. Em
1825 ela é transferida para Joaquim Marques Batista
de Leão, que é o primeiro dos moradores
de Botafogo disposto a urbanizá-lo, dando-lhe
a aparência de um bairro. Subdivide suas glebas
para loteamento e abre nelas duas ruas por volta de
1826, a REAL GRANDEZA e a Nova de São Joaquim
(Voluntários da Pátria). Seus herdeiros
abriram, em 1853, a rua MARQUES e o LARGO DOS LEÕES,
onde se situava a mansão da família. Para
os proprietários de chácaras, a abertura
de ruas em suas terras era interessante, pois valorizava-as
na perspectiva de um parcelamento imediato ou futuro.
A intensificação da ocupação
da área se fará sentir cada vez mais aceleradamente.
Se até meados de 1850, a figura da transferência
de propriedade na área é a chácara,
a partir daí será o lote de padrões
nitidamente urbanos, testada exígua e grande
profundidade. Um agente acelerador desse processo foi,
sem dúvida, a acessibilidade criada com a introdução
de uma série de meios de transporte coletivo
que passam a servir Botafogo a partir de 1840, ligando-o
efetivamente ao Centro da cidade. A implantação
desses meios de transporte, acessíveis às
camadas médias e baixas, com maior capacidade
de passageiros e cargas e maior número de viagens
diárias, decreta o fim do isolamento de que se
beneficiava a aristocracia residente e, portanto, da
característica eminentemente elitista que marcou
sua ocupação inicial.
A chegada do bonde em 1871, cruzando o bairro e indo
até o Jardim Botânico, mudando radicalmente
a trama intra-urbana da cidade em geral, atinge Botafogo
em particular, promovendo uma maior diversificação
funcional, propiciando a ampliação do
número de estabelecimentos comerciais.
A expansão experimentada pela área de
Botafogo no século XIX tem sua expressão
física na grande quantidade de novas ruas abertas
nesse período, permitindo acesso a outra grande
quantidade de novos e sucessivos desmembramentos. Botafogo
terá, ao fim do século XIX, lançada
praticamente toda sua malha viária atual.
Na abertura de novas ruas, o Poder Público,
quando muito, por solicitação do proprietário,
fornece ajuda, mas nunca possui recursos suficientes
para aterrá-las, calçá-las ou muní-las
dos melhoramentos necessários. O ajardinamento
do Largo dos Leões, empreendido por seu proprietário,
foi um exemplo disso.
O traçado viário atual do bairro espelha
esse desenho espontâneo, resultado da soma das
iniciativas individuais dos donos das chácaras
no período dos parcelamentos intensivos.
O final do século XIX introduz um novo agente
neste desenho, antes espontâneo, que são
as primeiras iniciativas organizadas por empreendimentos
imobiliários. O Banco Mercantil promove a abertura
e a venda de lotes concomitantes das ruas Assis Bueno,
Álvaro Ramos, Arnaldo Quintela, Fernandes Guimarães,
São Manuel, Rodrigo de Brito, Oliveira Fausto
e Travessa Pepe. Os irmãos Farani fazem a mesma
coisa com a Farani, Barão de Itambi, Jornalista
Orlando Dantas, Clarisse Índio do Brasil, Visconde
de Caravelas, Visconde Silva, Pinheiro Guimarães
e Conde de Irajá. Em fins de 1890, seriam abertas
as ruas: 19 de Fevereiro, Aníbal Reis, Paulino
Fernandes, Vila Rica, Tereza Guimarães, Elvira
Machado, Martins Ferreira, Capistrano de Abreu, Diniz
Cordeiro e João Afonso. Estava assim lançada,
até o fim desse século, a malha viária
interna básica do bairro como a conhecemos hoje.
A ocupação propiciada por esse novo sistema
viário que se expande no século XIX, retalhando
o bairro em quadras extensas e profundas, liga-se ao
processo de "transbordamento" populacional
do Centro. Num quadro mais amplo, o Rio de Janeiro sofria
os efeitos da crise da cafeicultura fluminense, da abolição
da escravatura, da chegada de imigrantes e do início
da industrialização. Tudo isso gera uma
crise habitacional, que atinge, principalmente, os bairros
centrais. No fim do século XIX, consoante com
o quadro geral da cidade na época, Botafogo vai
apresentar uma ocupação de caráter
misto em termos de classes sociais.
O surgimento dos primeiros estabelecimentos de comércio,
contudo, está intimamente ligado ao atendimento
das necessidades da população residente
e a expansão do comércio se dá
na mesma medida da expansão do uso residencial.
Dados de 1859, relativos a Botafogo, demonstram uma
grande concentração de comércio
de gêneros alimentícios na Rua São
Clemente. Já em 1863, apesar de persistir a predominância
do comércio de alimentos, surgem, contudo, oficinas,
antes inexistentes. A Rua Voluntários da Pátria,
que em 1871 não tinha nenhuma expressão
em termos de localização de estabelecimentos
comerciais, surge dez anos depois como a de maior número
de estabelecimentos no bairro.
A crescente mudança funcional do bairro pode
ser especialmente sentida pela transformação
que sofre a enseada de Botafogo. Este segmento do bairro,
de ocupação originalmente aristocrática,
vai mudando sua função principal ainda
no decorrer da segunda metade do século XIX,
transformando-se na segunda via em importância
comercial e de serviços do bairro. Nas primeiras
décadas do século XX, já é
nítida a concentração de colégios
e hospitais no bairro.
Para compreensão do processo de expansão
de Botafogo nos primeiros 30 anos do século XX
é preciso introduzir uma variável nova
que é a ação do Poder Público,
que muda radicalmente o seu papel no movimento de expansão
urbana. Se antes como vimos, o desenho urbano nas áreas
periféricas era de início basicamente
espontâneo, resultante de um somatório
das iniciativas individuais dos proprietários,
muda-se este aspecto com o surgimento da iniciativa
privada organizada ao fim do século e o Poder
Público passando, logo depois, a interferir diretamente;
dando suporte técnico e financeiro à realização
do lucro do capital privado através de empreendimentos
imobiliários. É o período do redesenho
do Centro da cidade, das primeiras iniciativas de "renovação
urbana" com a expulsão das camadas pobres
das áreas valorizáveis da região
central. "O Rio civiliza-se": erradicam-se
os cortiços, são feitos novos aterros,
arrasam-se morros, expulsam-se as utilizações
do solo não-rentáveis.
Neste sentido, Botafogo terá reforçado
seu papel de frente pioneira de ocupação
da orla atlântica, assumindo cada vez mais a função
de passagem, ligação obrigatória
do Centro com a orla sul. O bairro passa por um novo
processo de ocupação e adensamento, agora
acompanhado e avalizado pelo Poder Público através
de Projetos de Alinhamento de abertura de novas ruas,
concomitantemente a novos loteamentos, principalmente
no período 1925-30. As ruas, David Campista,
Miguel Pereira, Eduardo Guinle, Bartolomeu Portela,
Cesário Alvim, Alfredo Chaves, Vitório
da Costa, Embaixador Morgan, Álvares Borgeth,
Miranda Valverde, Guilhermina Guinle, Henrique de Novais,
Barão de Lucena e Ipu são abertas, nesse
período, dentro deste novo espírito.
No bojo da ocupação do bairro, agora
tutelada pelo Poder Público, surgem as vilas
e habitações coletivas. Essas soluções
para o adensamento horizontal do espaço ocupado,
são largamente disseminadas nesse período.
Servem de moradia para levas de operários, biscateiros,
artesãos, funcionários públicos,
militares, profissionais liberais, pequenos comerciantes
e bancários. Os primeiros vão ocupar os
cortiços que se espalham pelo bairro; os últimos
irão habitar as centenas de casinhas de vila
e avenidas que passam a ser produzidas em grande escala.
É digno de nota o surgimento, nos anos trinta,
dos primeiros dados estatísticos indicativos
da favelização nos morros do bairro, como
Pasmado, Saudade e São João. Paralelamente,
o processo de ocupação das encostas do
Corcovado nesse período, demonstra o início
da saturação da parte plana do bairro.
Em 1933, aproximadamente 30% do total de prédios
existentes no bairro é constituído de
casas em avenidas, concentradas principalmente na Rua
São Clemente, no trecho que vai até a
Rua Real Grandeza. Em 1937, estão definitivamente
encerradas as construções de vilas em
Botafogo, por impedimento da legislação
municipal. Esta proibição, aliada à
renovação das técnicas de construção,
permitirão o processo de adensamento do bairro,
através de novas formas construtivas, primeiro
com pequenos prédios de três a quatro andares,
mais tarde, com edifícios de maior altura.
O período compreendido entre 1940 e 1960, marcado
por um "boom" imobiliário nos bairros
da orla marítima, principalmente em Copacabana,
é uma época de relativa estagnação
para Botafogo. Afora o surgimento de novas atividades
de serviço, a densificação da Praia
de Botafogo e a proliferação de favelas,
o bairro mantém-se com uma ocupação
predominantemente horizontal, mantendo sua fisionomia
típica, basicamente de prédios baixos.
O papel de Botafogo como centro de serviços especializados
para os demais bairros da Zona Sul já está
em marcha nesse período. Reforça-se sua
característica como área de ligação
entre bairros.
À medida que se intensifica o movimento dos
passageiros transportados vai se estabelecendo uma diferenciação
crescente no interior do bairro, entre os eixos de passagem
e as quadras internas. Ao lado das ruas de intenso movimento,
onde se misturam prédios de diversas idades e
alturas e diferentes atividades, permanece ainda a imagem
- paisagem de um Botafogo residencial e horizontal,
com sua arquitetura e suas ruas que nos são tão
familiares e que lhe conferem um "rosto" tão
singular.
Nos últimos anos, a cidade do Rio de Janeiro,
espremida entre seus vales, vive um processo de adensamento
cada vez mais intenso. A contínua e crescente
utilização das ruas de Botafogo como eixos
de passagem, numa resposta mecânica do Poder Público
ao aumento progressivo do volume de tráfego gerado,
e na busca de interligar, a qualquer custo, os diferentes
pontos da cidade, acabam por inviabilizar tentativas
eficazes de controle e aproveitamento mais racional
do seu espaço. A valorização do
solo ao longo desses eixos fomentou a competição
pela sua utilização entre diversos setores
da atividade social e econômica, estimulando a
renovação da área, a sua diversificação
funcional e verticalização, muitas vezes
aleatória, provocando a expulsão de grande
parte de seus antigos moradores e transformando sua
paisagem. É um pouco desse Botafogo "remanescente"
que consideramos fundamental preservar.
* Pesquisa baseada no artigo de Sergio Lordello,
"Expansão urbana e estruturação
de bairros do Rio de Janeiro: o caso de Botafogo",in
Revista Rio de Janeiro, Dezembro 1986 e na publicação
"Botafogo/ história dos bairros",
de vários autores, João Fortes Engenharia,
1983.
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